Thriller: um fenômeno eterno

(Memórias de infância 6)

A cada década é possível reconhecer (e isso sem a menor dificuldade) o nascimento de um grande gênio em uma determinada modalidade artística. Procure a fortuna crítica existente sobre o mundo do cinema, das artes plásticas, da televisão, do teatro, da literatura e da música, e logo vocês se depararão com grandes nomes em suas respectivas áreas. Em 1982 não foi diferente. Na verdade, 1982 foi o ano de um dos maiores fenômenos da história da música mundial. E ele se chama Thriller, segundo álbum solo do ícone pop Michael Jackson.

Eu sequer tinha seis anos de idade quando Thriller foi lançado no mercado e mesmo assim conheço mais sobre o álbum que qualquer outro já lançado no mesmo período. E isso se deve a uma razão muito fácil de explicar: o disco viralizou - expressão essa que não existia na época - de forma tão gigantesca, que continuou repercutindo pela década seguinte e, inclusive, durante o lançamento de outros álbuns do cantor.

Falar da qualidade do álbum, uma parceria de Michael com o maestro e seu arranjador e amigo pessoal Quincy Jones, é como chover no molhado. O próprio Jackson não conseguiria posteriormente reunir de maneira tão fácil um repertório tão genial quanto este. Os hits são inúmeros: Beat it, Billie Jean, Wanna be startin' somethin', The girl is mine (dueto com o beatle Paul McCartney, que depois acabou em inimizade depois que o ídolo pop comprou os direitos autorais das canções do quarteto mais famoso da história do rock), Human nature e, claro, a faixa que dá título ao álbum homônimo e que rendeu inclusive um clipe antológico dirigido pelo cineasta John Landis e que hoje faz parte do acervo da Biblioteca do Congresso norte-americano.

Resultado: o disco faturou inacreditáveis oito Grammys dois anos depois, dentre eles o de álbum do ano. E mais do que isso uma certeza: o reconhecimento de Michael Jackson como uma lenda, um gênero musical por si só. Tanto é que com o passar dos anos Michael ganhou a pecha de marca registrada e seus projetos posteriores (como o longametragem cinematográfico Moonwalker e clipes que se tornaram cultuados como Bad, dirigido por Martin Scorsese, Smooth Criminal e Black or White tornaram-se sinônimos de "extremamente aguardados". Aliás, a própria vida do cantor com o passar dos anos, tornou-se um produto dessa mídia sensacionalista que cria e derruba mitos a todo momento de forma mateórica.

No Brasil, o legado construído por Michael Jackson (e principalmente por Thriller) está presente na cultura do país até hoje. Ele é estátua numa comunidade no Rio de Janeiro, já gravou clipe por aqui dirigido por Spike Lee, durante os anos de seu álbum mais emblemática conseguiu transformar a roupa usada em seu clipe Beat it numa das fantasias de carnaval mais cobiçadas da época. E teve até mesmo gente por aqui copiando seu nariz em cirurgias plásticas.

Como nem tudo na vida de qualquer popstar resume-se a um eterno mar de rosas, é lógico que falar de Michael Jackson também se trata de falar de suas múltiplas polêmicas, desde a briga com o pai Joe Jackson, durante o período em que era o vocalista dos Jacksons Five, a questão envolvendo os filhos, sempre em trajes escondendo o rosto e a sua eterna postura de enfrentamento à mídia, sempre obsessiva na busca por retratá-lo, muitas vezes de maneira gratuita. Contudo, a este pequeno artigo não interessam tais discussões tolas, pois acredito que o cantor e compositor, artisticamente falando, sempre foi bem mais do que isso.

Em 2008 o álbum foi relançado sob o título Thriller 25, comemorando os 25 anos de lançamento do disco e durante esse período muito se comentou em tablóides sobre o legado produzido por ele ao longo dos anos. Além do fato dele não ter envelhecido um segundo sequer, Thriller se mostra de uma relevância assustadora, na medida em que as gerações seguintes à sua gestação não produziram um ídolo tão grandioso quanto Michael Jackson. Na verdade, o que se percebe hoje na indústria fonográfica - e acredito que isso ficou mais claro ainda depois do funeral do cantor - é que existe, isso sim, uma enorme legião de artistas fãs, e nenhum que se atreva de fato a destroná-lo. Nem mesmo o posudo e atrevido Kanye West, que já se autorotulou gênio em suas apresentações e incomodou grande parte da imprensa com tais declarações exageradas, cometeria tal afronta.

Chego ao fim dessa curta jornada memoriográfica (confesso: poderia ficar aqui o ano inteiro falando do álbum e mesmo assim não arranharia a superfície externa de seu legado musical, por isso prefiro a eterna armadilha de deixar aos meus leitores um gostinho de quero mais. Procurem na internet! Nunca foi tão fácil saber sobre essa história quanto hoje em dia, em meio aos sites de pesquisa como Google e You Tube) com um sentimento misto de nostalgia e tristeza.

Nostalgia por saber que fiz parte da geração que acompanhou esse fênomeno de perto, ouviu e reouviu suas músicas, tentou dançar (e se estabacou no chão) querendo imitá-lo, e não apenas um ouvinte de fora que acompanha o artista numa geração posterior à ele. E tristeza por me perguntar se ainda verei algo tão grandioso quanto isso acontecendo de novo no mundo da música.

E agora? O jeito é esperar!!!

Denunciar conteúdo

Tem algo a dizer? Esse é seu momento.

Se quer receber notificações de todos os novos comentários, deve entrar no Beevoz com o seu utilizador. Para isso deve estar registado.