I want your sex, your life and much more…

(R.I.P George Michael)

Eu me lembro exatamente do dia em que ouvi o cantor George Michael se apresentando na tv. Foi num clipe da antiga MTV e a música em questão era Faith, do álbum icônico de mesmo nome da segunda metade da década de 80 que ele próprio escreveu e produziu. E uma das coisas que nunca me esqueci foi de um antigo colega meu - hoje, ex colega - dizendo com o maior orgulho: "isso é música de bicha. Não vou perder o meu tempo ouvindo isso!". Que babaca! Provavelmente, faria sucesso em muitos círculos sociais hoje em dia, tempos de homofobia e intolerância total.

Mais do que isso: ele realmente não entendeu quem viria a ser George Michael; sequer se esforçou para isso. Estava acometido pela eterna covardia que sempre toma conta dos insensatos e dos que se dizem melhores do que todo mundo. Honestamente? Quem perdeu foi ele...

George Michael foi muito mais do que um artista pop. Ele foi praticamente a marca registrada mais acentuada dos anos 80, anos esses multicoloridos por natureza. Começou no duo inglês Wham! (onde se conta que realizou um dos rompimentos mais amigáveis da história da indústria fonográfico, sem atritos ou ressentimentos posteriores) para depois imprimir sua marca em sucessos como Father figure, Careless whisper, a até hoje insuperável Freedom 90', cartão de vistas do canal MTV como um dos clipes mais badalados de sua programação em toda a história, Jesus to a child, sua cover apaixonante de I'm calling you, trilha sonora do filme Bagdad Café, I want your sex e tantas outras.

Pois bem: dentre as muitas notícias trágicas que o natal desse ano trouxe - terremoto no Chile, acidente aéreo com um avião militar russo, brasileiros desaparecidos tentando entrar ilegalmente nos EUA - estava entre elas o seu falecimento, aos 53 anos, após uma parada cardíaca. Nãda mais foi dito sobre a causa mortis e nem é necessário, cá entre nós.

Digo isso porque os verdadeiros fãs não desejam em tempo algum lembrar de Mr. George Michael por sua partida, e sim por sua música e temperamento radical, intempestivo, à frente do seu tempo, de qualquer tempo por sinal.

George Michael, meus amigos, também foi (assim como figuras como Marlon Brando, James Dean, Cazuza, Amy Winehouse e uma legião de artistas que eu levaria toda a minha vida para elencar e ainda assim a lista permaneceria imcompleta) um outsider. Só para constar: foi o primeiro artista branco e receber um prêmio na categoria R&B, gênero normalmente associado à música negra. Boicotado pelas rádios negras que não o veiculavam por ser branco, boicotado pelas rádios brancas por tocar música negra, George fez seu próprio caminho, repleto de espinhos e controvérsias.

Quando esteve no Brasil em 1991, no Rock in Rio 2 realizado no Maracanã (a cidade do rock original, da edição de 1985, foi demolida por ordem do então Governador do Estado, Leonel Brizola), ao lado de outros ícones do pop e do rock, como Prince, Billy Idol e Guns n' Roses, fez um enorme sucesso, tanto pelo repertório escolhido para o show como também pelo corte de cabelo moderno que fugia das madeixas que o celebrizaram na década anterior. Além disso, foi aqui em nossas eternas que conheceu seu namorado, o estilista Anselmo Feleppa, morto vítima da AIDS em 1995, cena que devastou o cantor pelo resto da vida.

Na verdade, a morte da mãe e do namorado foram duas perdas irreparáveis, das quais jamais se recuperou em vida. Daí em diante, ficou mais conhecido nas manchetes de jornais por suas polêmicas e escândalos. E, infelizmente, isso abalou a imagem que se tem hoje de seu legado musical.

A última vez que o vi foi cantando na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e ele já dava sinais de cansaço, bem mais inchado do que a tradicional silhueta que o consagrou. Enfim.. Uma morte para ficar na história como registro de um homem que sucumbiu às suas tragédias pessoais e não conseguiu se reerguer.

Para essa sociedade homofóbica dos dias de hoje (como já ressaltei num parágrafo acima), talvez George Michael se resuma a uma mera "bicha louca" ou "um bobalhão que gostava de chamar a atenção em exesso". Contudo, sinto informar a esses mal informados detratores, ele foi muto mais do que isso. Trata-se de um visionário, um homem que combateu o sistema e o mercado fonográfico com unhas e dentes e não se submeteu a suas demandas, simplesmente para agradar seu bolso ou suas finanças. Pagou com o preço do anonimato nos últimos anos por suas escolhas por vezes equivocadas, mas isso em nada muda seu legado para a posteridade.

Pena que os abutres capitalistas somente agora relançarão sua obra de maneira adequada. É sempre assim: eles esperam que os ídolos morram para encher a burra de dinheiro com o trabalho deles. É típico dos aproveitadores!

No mais, podem certeza: a América, não bastasse perder David Bowie e Prince, perdeu mais um grande artista. 2016. Que ano!!!

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