Memes

(O guia de bolso da geração internet)

Esta semana, durante uma conversa com colegas de segundo grau que não via há praticamente uma década, perguntaram-me o que eu tenho achado de mais desnecessário na sociedade contemporânea e eu tive uma enorme dificuldade de responder, tendo em vista que tenho achado muita coisa babaca e desimportante no Brasil. E pior: sendo tratado com uma revelância impressionante e assustadora. Meus interlocutores aguardaram pacientemente enquanto eu pensava numa resposta que realmente traduzisse o meu desapontamento e finalmente cheguei à conclusão de que são os memes.

Isso mesmo, meus caros colegas internéticos! Estou para ver, desde o final do século XX para cá invenção mais desnecessária e boba do que os famigerados memes.

Fui ao pai dos burros da pós-modernidade (mais conhecido como Wikipédia) atrás de uma definição válida para o termo. E em meio a tanto blá blá blá inútil - especialidade do site, por sinal - chego à conclusão de que é um conceito que viraliza na internet, seja em que formato encontre-se disponível (vídeo, foto, etc). Em discurso coloquial é mais ou menos qualquer idiotice que chame a atenção da maioria dos usuários de internet. E acreditem: o que mais faz sucesso no mundo online é idiotice.

Contudo, para que não me acusem de desumano, de charlatão, de desprezível, de infeliz, entre outros adjetivos amigáveis que os haters internéticos tanto adoram pregar em suas horas vagas, é preciso entender o papel sociel que esse dispositivo vem ganhando na atual sociedade.

Desde tempos imemoriais o ser humano procura formas de interagir, de se fazer entendido em seu próprio meio, de dialogar com outras formas de vida ou estruturas. Para isso existiram os Oráculos gregos, para isso existem as famosas (para alguns, tediosas) sessões de terapia, para isso existem as rodas de leituras, os fóruns de debate. Guardadas as devidas proporções e levando-se em consideração o nível de alienação atual da humanidade (infelizmente, é triste perceber o quanto regredimos como sociedade, o quanto se dá importância ao medíocre e ao inútil da sociedade pós-moderna!), os memes vêm preencher esse espaço no mundo chamado de globalizado.

Sua presença mais óbvia é nas redes sociais, mas não só nelas, A moda pegou para valer e mesmo as mídias tradicionais já reservam um espaço em suas programações para discutir o seu papel. São vários, sobre os mais diferentes assuntos. E atendem às exigências dos mais distintos grupos de interesse. Podem desempenhar desde o papel de conselheiro sentimental à mestres na arte da fofoca mais pura. São capazes de oferecer parábolas positivas, visando tornando a sua vida um pouco melhor, como também atacar o lado mais hipócrita dessa mesma sociedade, criticando posturas acusadoras, racistas, homofóbicas (porém, há quem diga que tudo não passa de uma versão mais cool do velho "morde e assopra" e eu concordo).

Assim como os youtubers - tema que eu já abordei aqui nesse canal - eles são popularíssimos. Canais como Chapolin Sincero (um alfinetador dos maus costumes cotidianos), Conselhos do Denzel (frases de efeitos associadas ao ator hollywoodiano), O que queremos (um trio de meninas que inventa parábolas que se pretendem otimistas no que concerne à lidar com problemas recorrentes da vida cotidiana, mas que sempre acabam vítimas da sua própria inércia e incapacidade de tomar uma decisão), trollagens usando como referência atores de cinema, desportistas (as que usam o piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello são hilárias!), modelos, enfim, qualquer figura pública que esteja na moda nesse momento ou que tenha obtido algum tipo de fama em algum momento da sua carreira, viram personagens do formato.

Mas eu me pergunto: a que destinam tais brincadeiras? Qual o seu papel social? Serão apenas brincadeiras? Não terá algo mais por trás disso? Um pontada de recalque, digamos? Em se tratando de um país que não consegue resolver seus problemas mais básicos e trata a população como idiota, provavelmente sim. Minha minha sempre me dizia que toda brincadeira, por mais divertida que seja, sempre tem um fundo de verdade, sempre tenta atacar alguém de alguma forma. Acredito que os memes encontraram uma maneira de atingir seus alvos de forma bastante descompromissada e irônica.

O que estou querendo dizer: em poucas palavras que o criador de uma meme, no fundo, pretende atingir alguém especificamente, algum desafeto, alguém que não concorde com seus pontos de vista ou visão de mundo, e acaba caindo nas graças de uma multidão de pessoas, que gostam de suas piadas, de seu texto (ruim, é bom que se diga previamente; não vejo nada de muito inteligente sendo propagado nessas narrativas. Muito pelo contrário: elas parecem endossar o nível intelectual médio da nação) e agradecido pela audiência faz disso uma espécie de marca registrada ou negócio.

Polêmicas à parte, o fato é que os memes vieram para ficar e caíram nas graças da geração geek, internética, viciada em celulares 24 horas por dia. E atingiram a plateia certa. Escrevem bobagens, fazem seu público-alvo rir como hienas o tempo todo e viralizar para amigos, colegas, parentes (marca registrada dessa geração), estão sempre se atualizando e usando como referência os tablóides sensacionalistas e a cultura pop do senso comum e não se cansam de causar. Aliás, causar é o verbo do século XXI.

"O que você produz pode ser uma porcaria, não ter função alguma, não servir para nada, mas se causou já tá valendo", me disse um jovem uns seis meses atrás. Quer dizer: os caras acertaram em cheio.

E pensar que o escritor Aldous Huxley falava em Admirável mundo movo. Meu Deus!!!

 

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