Um drama bíblico e amazônico

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(Dois irmãos: um novo clássico da TV)

Precisei de alguns dias para absorver em toda a sua grandiosidade o final da minissérie Dois Irmãos, baseada no livro homônimo de Milton Hatoum, e produzida pelo diretor Luiz Fernando Carvalho para a Rede Globo. E valeu a pena. Como toda boa adaptação literária que se preze a sensação que fica para o espectador é de que o texto ainda permite infinitas possibilidades, inúmeras leituras, uma obra sempre em processo.

Contudo, é preciso que se diga: Dois irmãos não é um obra fácil de ser digerida e se você, caro espectador/leitor, não viu a versão audiovisual e pretende ver mais tarde, quando lançada em home video ou migrada para a internet, prepare-se! E quando digo prepare-se, é no sentido de ser surpreendido a qualquer instante. Seja pela beleza esfuziante das imagens muito bem captadas pela equipe que realizou o projeto, seja pela fisicalidade e voracidade do texto e de suas interpretações.

Conheço muita gente que não conseguiu assistir a minissérie até o fim e os entendo perfeitamente. Vivemos num país difícil, que vive uma de suas maiores crises morais, monetárias e principalmente de caráter. A todo momento nos deparamos com uma violência urbana surreal, trazida até nós por horas e horas de um telejornalismo tendencioso que vê a barbárie como fetiche, como algo "excitante". E por conta disso, ouvi muita gente dizendo (afirmando) que "de tragédia e brutalidade já basta a vida". Como já disse anteriormente: os entendo perfeitamente.

Porém, para os corajosos, sadomasoquistas, amantes da boa literatura brasileira, fica aqui a minha indicação aos que tiverem fôlego: Dois irmãos é um dos trabalhos televisivos mais bem feitos e poderosos já realizados nos últimos anos. E digo isso porque a tv nunca andou tão frívola, vulgar e enfadonha quanto na última década. E qualquer pessoa que repudie a cultura reality show e as recentes telenovelas produzidas há de concordar comigo...

A minissérie (e o livro, obviamente) contam a história da eterna rivalidade entre os irmãos gêmeos Yaqub e Omar, numa Amazônia que sente os efeitos de um período de turbulências históricas no país de tempos em tempos. Seus pais, Halim e Zana, são um caso à parte na trama e nem por isso deixam de ter vida própria. De um lado, Halim (trabalho notável, principalmente dos atores Antônio Calloni e Antônio Fagundes), um caixeiro-viajante libanês que se apaixona por essa mulher hipnotizante, filha de um próspero comerciante, e com ela constitui família. Nunca almejou para si a paternidade, mas por obedecer a qualquer capricho de sua amada, aceita o desafio (pois se tem claramente a impressão de que, para ele, ser pai desde o início seria um enorme desafio). Do outro lado, Zana (e cabe aqui um elogio ao trabalho das atrizes Eliane Giardini e Juliana Paes, principalmente esta última, que me surpreendeu bastante), uma mãe apaixonada em excesso, principalmente pelo caçula, Omar, que quase não vingou durante o parto, e por isso é tratado durante toda a vida como um bebê, o filho preferido. Como pano de fundo, sempre numa posição secundária dentro da casa, a filha mulher, Rânia, aquela que não possuía à primeira nenhum direito à opinar, mesmo a pensar por si mesma, e a empregada Domingas, que entra para a família após um acordo com a igreja.

Composta a família, nasce o dilema. E para Zana, mãe alucinada, superprotetora, ela se chama Lívia, a femme fatale que começa o legado de horror dentro da residência e da vida dos irmãos gêmeos. Só que mais do que isso: essa rivalidade, à princípio amorosa, leva a uma série de encadeamentos os mais diversos: Yaqub parte para o Líbano, terra do pai, e por lá permanece por cinco anos (experiência que lhe deixou traumas eternos na adolescência), mas Zana não permite que Omar vá, por considerá-lo frágil, destruindo qualquer possibilidade de ligação futura entre os irmãos; a gravidez misteriosa de Domingas e o nascimento de Nael (já na idade adulta, mais um trabalho extraordinário do ator Irandhir Santos, que também é o narrador da história aqui contada); a partida de Yaqub para São Paulo onde se torna um importante engenheiro, enquanto Omar permanece em seu eterno idílio, regado a bôemia e intolerância.

Zana tenta a todo custo aproximar os filhos, quer que eles tenham uma relação amistosa, fraternal. Entretanto, em meio a essa batalha de proporções bíblicas, que remete a Caim e Abel, é meramente impossível encontrar um meio-termo que consiga unir os dois irmãos.

Yaqub é sério, disciplinado, construiu uma carreira, um casamento, achou seu porto seguro. Omar é desequilibrado, violento, irracional, capaz de usar seu charme para conquistar qualquer mulher que deseja ou destruir qualquer pessoa que atravesse o seu caminho. E o que ele mais deseja é destruir Yaqub. Para ele, o responsável por toda uma vida em segundo, sempre sendo chamado de imprestável pelo pai (algo que para ele é o mesmo que uma sentença de morte).

Os coadjuvantes (Rânia, Nael, o professor e poeta Antenor Laval, referência masculina na vida de Omar, quase que seu verdadeiro pai) nada podem fazer para conter a fúria de Omar ou mesmo convencer Yaqub a ceder, a entender a fúria do irmão. Mediante isso, Halim desiste, entrega-se à sua própria vida leve, cotidiana, enquanto Zana enlouquece dia a dia. Mais do que isso: vê a história de sua família e sua casa se desmancharem diante de seus próprios olhos. Mas negará até a morte a sua participação nessa babel amazônica para lá de autodestrutiva.

O que fica então desse tour de force megalomaníaco e irracional? A sensação mais do que legítima de estarmos diante de um jornada de amores mal intencionados, egoísmos à flor da pele e uma catarse épica, digna de um longametragem dirigido por Cecil B. Demille.

Acreditem: o texto de Hatoum explora bem a condição do homem no quesito egoísmo. Nesse quase O médico e o monstro tropical, o que mais salta os olhos é a incapidade do homem conseguir enxergar o outro. Estão todos, sem exceção, tão preocupados com o seu próprio bel prazer, que simplesmente se esquecem de que a vida consiste de relacionamentos. E o que eles querem, ao contrário, é a confirmação de suas próprias expectativas, querem adequar o outro à suas vontades e objetivos pessoais. Por não entenderem o outro, por querer moldá-lo à sua própria semelhança, geram a guerra, a fúria entre iguais (se não de personalidade, certamente de intenções). E o resultado apocalíptico é a morte ou a insanidade total.

Nos últimos anos não acreditava mais possível que a Rede Globo produzisse nesse formato algo tão grandioso quanto O tempo e o vento, Grande sertão: veredas ou Memorial de Maria Moura. Estava redondamente enganado. A emissora conseguiu de novo. Coloco Dois irmãos entre os grandes trabalhos da tv aberta nesse século (que está apenas começando). Ficando aqui uma certeza: quando a tv assim o quer ela é capaz, sim, de produzir algo de qualidade.

Basta saber quando é que ela está afim. Só que isso é assunto para outros opinadores, não este adorador do bom entretenimento.

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