O filme do ano?

3Recompensas

(Aquarius e o Brasil que ninguém quer ver)

Eu esperei. Esperei mais do que a média, até. De uns tempos para cá eu tenho feito isso frequentemente com filmes que atingem multidões ou geram repercussões que se desdobram ao longo do ano. Não consigo mais seguir o fluxo, a demanda de pessoas que vem com aquele papinho "voce não pode deixar de ver, é o filme do ano". Decidi mudar. Decidi esperar o filme em questão fazer sua trajetória, ser falado até a exaustão, para só então emitir um parecer sobre ele.

Foi assim com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que dividiu opiniões, gerou rachas na estrutura do país e chegou a ser boicotado (não há outra explicação para o que aconteceu) como provável candidato do Brasil a concorrer à uma das vagas ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E o melhor de tudo: não me arrependi de minha escolha um segundo sequer.

Aquarius conta a história de Clara, uma mulher pacífica, que vive em seu apartamento classe média em Recife com a ajuda da empregada e que após ter vencido uma batalha contra o câncer de mama, decidiu levar a vida de maneira menos acelerada, sem se preocupar tanto com o que possa acontecer, onde, quando e porquê. Seus filhos são adultos e vivem suas próprias vidas, o que dá margem para que ela curta seus próprios prazeres como, por exemplo, a música. E nesse quesito Clara é amante das tecnologias que remetam ao passado (como o vinil), mas ela não é uma pessoa vintage, como muitos gostam de classficá-la, de tempos em tempos.

A vida de Clara dará uma enorme guinada e lhe trará de volta a um mundo de desafios e sofrimentos quando a construtora do imóvel (que, aliás, encontra-se praticamente vazio, sendo ela a única - e persistente - moradora) decide comprar o seu imóvel a qualquer custo, fazendo-lhe uma oferta milionária, pois tem como objetivo criar um empreendimento imobiliário nunca antes visto na cidade em seu lugar. Clara se recusa a vender seu apartamento e é nesse momento que começa o seu calvário, pois ela vai percebendo de forma muito tênue o quanto os administradores do prédio farão de tudo para que ela mude de ideia e desista do imóvel.

Aquarius tem em sua estrutura narrativa um elemento que anda muito em voga no Brasil do século XXI: a falta de solidariedade e de compreensão do ser humano. Ela está rodeada de pessoas interesseiras e egoístas que só pensam em suas próprias vidas e objetivos, sendo capazes de qualquer coisa (mesmo destruir o próximo, se necessário) para atingí-los. É assim com os vizinhos intransigentes que toparam o negócio oferecido pela construtora e chegam a ameaçá-la, é assim com a filha egoísta e divorciada que não pensa duas vezes em questionar a mãe quando fica sabendo que a oferta feita pelos donos é tentadora, é assim com o jovem engenheiro oportunista, formado no exterior e alheio a qualquer outra necessidade que não a sua, criando sempre razões para tornar sua vida cada dia mais desconfortável dentro do prédio.

E as armadilhas e confusões criadas são muitas: orgias, reuniões reiligiosas, cupim... Tudo articulado com uma intenção diabólica digna dos melhores filmes de Alfred Hitchcock.

E a sensação - justa, é bom que se diga! - ao final da projeção é a de que estamos de fato diante de um país que faliu. Pois se não há respeito ou solidariedade pelo próximo e o que interessa no final das contas são as vontades do mercado em detrimento do ser humano, então meus caros amigos, o fim do mundo chegou e nem sequer nos demos conta.

É muito fácil entender porque o filme de Kleber Mendonça Filho foi escolhido como o Judas da vez no cinema nacional. É até óbvio, em meio a um governo golpista e cretino, que usou de sua falácia política para ludibriar o povo pela enésima vez, que isso tenha acontecido. Mas na prática a verdade é uma só: Aquarius virou dos petralhas, dos ressentidos, dos que não querem ver o Brasil crescer. Não foi isso que eu vi, mas é assim que ele está sendo vendido. E o fato de ter como protagonista uma artista-síntese do cinema nacional como Sônia Braga só complica ainda mais as coisas. Lembro de ter entrado num cinema onde o filme estava sendo exibido e um grupo de senhoras da idade da atriz comentarem após ver o cartaz do longa: "por que ela quis se meter nessa roubada?".

Eu não sei se Aquarius é de fato o filme do ano (no caso, o ano que passou). Na verdade, ele não me remete com a mesma facilidade que outros filmes da retomada, também rotulados de os melhores do ano, como CIdade de Deus, Central do Brasil ou Tropa de elite. Aquarius busca um público muito parecido com o do longametragem de Anna Muylaert, Que horas ela volta?, que trata da relação entre patrões e empregados no país, outro tema para lá de espinhoso. Contudo, ele não se utiliza de uma denúncia aberta, direta, agressiva. Pelo contrário: ele se utiliza de lacunas e entrelinhas providenciais para expor o incômodo dos cinéfilos.

Aquarius é um filme incômodo. Retrata um país que ninguém quer. Expõe a nu a hipocrisia secular que reina no Brasil. E muito por causa disso ficará estigmatizado para as próximas gerações. Espero sinceramente que venha a ser redescoberto no futuro por uma sociedade mais lúcida, menos odiosa. E mais: como é bom saber que ainda tem gente com culhões no país, em meio a toda a crise fabricada nos últimos anos para jogar cidadãos contra cidadãos, disposta a meter o dedo nessa ferida. Que filmaço! E que país escroto esse nosso!!!

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