Não é esse bicho de sete cabeças todo…

(Viva a língua brasileira! - E Sérgio Rodrigues, é claro)

- A língua portuguesa é a mais difícil do mundo!

- Aprender português? Tô fora!

- Só quem conhece mesmo a língua é a nossa elite.

- Eles fazem de tudo para que o povo não a aprenda!

- Em tempos de globalização, é melhor aprender inglês, francês, espanhol, enfim, outra coisa.

São muitas as desculpas e motivos para que o povo brasileiro não aprenda a sua própria língua e prefira viver de gírias, dialetos, internetês e estrangeirismos os mais diversos. Ignorância? Bem provável. Somos um dos países do mundo com o maior número de analfabetos funcionais (aqueles que sabem ler, mas não entendem o que leem). Eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes fui chamado de maluco por colegas de faculdade, de trabalho e da vida por ser um interessado na nossa língua-mãe.

Eu não me recordo exatamente de quando foi o dia em que a língua portuguesa entrou na minha vida de forma mais intensa. Mas me lembro de um professora da sétima série do 1º grau que me mostrou que aprender a nossa língua não era o bicho de sete cabeças que todo mundo pensa que é...

E acreditem: foi mágico. E não só mágico, mas importantíssimo para que, com o passar dos anos, eu me tornasse um interessado ferrenho em idiomas em geral. Não é à toa que só assisto filmes e seriados com som original (mesmo que eu não conheça nada do idioma e tenha que ver com legendas, ainda assim prefiro a versão original. Coisa de fanático? Quem sabe...). Já a relação com os livros sobre o nosso idioma foi mais tardia. Eu comecei a me interessar mesmo por causa de autores como Guimarães Rosa e Paulo Leminski, experimentalistas e neologistas por natureza.

Pois bem: alimentando um pouco mais essa minha admiração a cada dia, deparo-me com um exemplar raro dando sopa nas prateleiras de uma dessas Saraivas de shopping Center. E levo para casa Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues. O subtítulo do livro promete ao leitor "uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo - o seu".

Parece marketing tolo e barato, mas eu embarco. Como embarquei na época em A casa da mãe Joana, de Reinaldo Pimenta. Chego em casa e vou logo abrindo o exemplar. Uma apresentação elegante, cheia de ilustrações que remetem ao nordeste predominantemente (e é fácil entender o porquê: é nossa região com o maior número de conhecedores da língua que já obtiveram prestígio por conta disso). Defendendo a ideia de não se tratar a nossa língua da mais difícil do mundo, e que certo ou errado são apenas pontos de vista.

Feita a mais que digna introdução, o leitor é convidado a participar de uma grande viagem (lembram do subtítulo?) pelo mundo mágico da língua portuguesa, com seus homônimos, maneiras de falar, regionalismos, ambiguidades as mais diversas.

Eu tive um professor no segundo grau que certa vez, ao explicar a um dos alunos da classe que nossa língua não era contraditória, não dava margem a confusões e más escolhas, mencionou a palavra contextualidade. "Nossa língua muda porque mudam os contextos por trás dela". Nunca me esqueci disso. E após terminar de ler esse volume assino embaixo do que ele disse mais de 20 anos atrás. Nossa língua não é confusa. Ela é pollisêmica, dinâmica, versátil, e ganha vida através de quem a fala. Mesmo que quem a fale seja um reles anafalbeto. Tudo é agregado a ela e com o passar do tempo leva a novos caminhos.

Sérgio explica a grafia (louro ou loiro?) e a pronúncia (ióga ou yôga?) de certas palavras, expressões perseguidas pelas patrulhas ideológicas e a do turma antipática do politicamente correto (anexo, em anexo ou no anexo? Risco de vida ou risco de morte?), modismos consagrados (lindo de morrer, melhor idade ou maioridade?), dúvidas (quilo ou kilo, década de 70 ou década de 1970?), palavras emergentes, surgidas nos últimos tempos (bizarro, avatar, conteúdo, deletar) e a origem de expressões idiomáticas que já entraram para o cotidiano da fala (arranca-rabo, acabar em pizza, cheio de nove horas, da água para o vinho), entre outras façanhas dignas de um especialista do tema.

Saborosíssimo - fiquei rendendo a leitura o máximo que pude, gostaria inclusive de indicar ao autor, quem sabe, um possível segundo volume -, cheio de situações que os mais leigos claramente chamarão de pegadinhas linguísticas (que não são), a obra a meu ver deveria ser leitura obrigatória nas escolas de ensino fundamental e médio. Principalmente hoje em dia, quando essa galera, em meio a um sistema educacional mais do que deficiente, perde tanto tempo lendo bobagens como auto-ajuda e "livros" de youtubers famosos. Atualizem-se, meus queridos! Ou amanhã os derrotados serão vocês mesmos.

Resumo da ópera: ao final da leitura a sensação que fica é a de que o cidadão brasileiro não aprende sua própria língua por mera preguiça. E por conta disso inventa uma própria para chamar de sua. Parece mais fácil aos tolos perder tempo com dialetos inverossímeis e grafias desfiguradas na internet (os eternos kkk, rs, vc, tb, kr tc?, entre outras "inovações" linguísticas) do que dar uma chance à língua oficial. E quando me refiro à língua não estou falando de norma culta ou gramática, falo da língua como deve ser falada e não a dicionarizada, sistemática, criada muitas vezes com a clara intenção de ser inacessível e fazer o povo desistir de aprendê-la. Procurem por certos gramáticos famosos e vejam se eu não estou com razão, pelo menos em parte...

Agora só resta o primeiro passo. E nesse eu não posso interferir. Depende de vocês. Mas que vale a pena, no final das contas, vale. Ah se vale!

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