Vamos falar de rock? Só um pouquinho?

(R.I.P Chuck Berry e o desencanto)

Chuck Berry foi enterrado em Saint Louis com toda pompa e direito a discursos de roqueiros famosos no seu velório e eu nem sequer fiz um texto-homenagem (ou epitáfio) para ele aqui em minha coluna. Sorry, Chuck! Mas a verdade verdadeira mesmo é que eu ando um tanto quanto desencantado (ou seria melhor dizer descrente?) com o rock n' roll. Explico-me.

Imagine você a minha situação: passei minha vida escutando Renato Russo à frente do Legião Urbana e Cazuza com ou sem Barão Vermelho; não cansava de escutar um vinil de meus pais de nome Sorrisos e lágrimas, com 20 canções de, entre outros, o próprio Chucky, Chubby Checker, Little Richard, Pat Boone, The Platters e companhia limitada. Vi uma geração do rock nacional nascer e milhões cantando "Love of my life" ao lado de Freddie Mercury, vocalista do Queen, no Rock in Rio de 1985. Isso fora minha paixão por The Doors, Nirvana, Pearl Jam, INXS, Aerosmith e mais, muito mais...

Passado todo esse tempo, eis que vejo o rock ser entregue a uma geração de posers dos mais diferentes estilos. Um pessoal que está muito mais interessado em aparecer do que em cantar. Um colega meu me disse, semana passada, que o mundo do rock anda cheio de Cristiano Ronaldos. Faz sentido.

Acho que meu desencanto com o rock começa com o surgimento do Oasis. Já sei, já sei... Os fãs da banda vão me linchar, mas não posso fazer nada. Que linchem. Os irmãos Gallagher se tornaram, a meu ver, mais relevantes quando brigaram entre si do que pela própria carreira que tiveram juntos. E olha que eu vi gente chamando a banda dos caras de "os sucessores dos Beatles". Perdoai-os, Senhor, eles não sabem o que dizem! Para não dizer que não gostei de nada que a dupla + banda fez, fico com "Wonderwall". De resto, tudo me pareceu à primeira vista, principalmente a parte da briga entre os irmãos, uma grande jogada de marketing. Hoje, os dois têm suas próprias bandas e seguem em frente rumo a... A onde mesmo?

Eu ouvi grandes vozes. Além de Mercury, Michael Hutchence do INXS (até hoje não acredito que ele se suicidou. Parece piada!), Scott Weiland do Stone Temple Pilots, Mike Patton do Faith No More, Sting à frente do The Police, fora clássicos eternos como Robert Plant, Roger Daltrey, Bruce Springsteen e... E é melhor parar por aqui, porque a lista é imensa e por mais que você não queira, sempre acaba esquecendo ou sendo injusto com alguém. Então, stop!!!

Já na última década, década e meia, a coisa complica. Invejo o preparo físico de certas bandas, a ousadia de um 30 Seconds to Mars (o Jared Leto, no meio do show no Rock in Rio, descendo de tirolesa e o escambau, e o cara ainda por cima é ator, acabou de fazer o Coringa no recente Esquadrão Suicida, haja fôlego para isso tudo ao mesmo tempo!), as mulheres lindíssimas (minha preferida é a vocalista do Evanescence, Amy Lee), mas - e sempre há um mas em toda reflexão ou artigo que se escreva - falta música. E quando digo isso, digo: a maior parte do tempo.

Não pretendo, é claro, demonizar toda a geração. É um enorme prazer ouvir Paramore de vez em quando nos sites de vídeos, é uma satisfação imensa ir a um show da Pitty, provavelmente uma das mulheres mais engajadas da atual geração do rock, provavelmente a Rita Lee dessa geração (caso queiram me apedrejar, posso terminar o artigo antes? Obrigado), ou descobrir aleatoriamente artistas como Reignwolf, Gary Clark Jr e Creed. Mas pesando na terrível balança dos prós e contras, é pouco diante da quantidade de opções que não passam de pose, berro, atitude e provocação. E não adianta: os mais novos que você não vão entender seu posicionamento. Vão dizer que você simplesmente caducou, envelheceu, "seu tempo já passou", como se tempo tivesse alguma coisa a ver com isso. Durma com um barulho desses.

Meu pai me dizia - e hoje guardo a frase bem nítida em minha mente, uma prova de sua sabedoria secular - que "um dia você verá toda a geração que você idolatrou dar lugar a uma penca de gente que você simplesmente não conseguirá entender porque faz tanto sucesso. E nesse momento perceberá que o que lhe resta é administrar a sua decepção e continuar com a sua turma, ouvindo o seu som!".

Putz! Esse é o melhor exemplo de máquina do tempo que eu conheço...

Portanto, my dear Chucky Berry, I'm sorry, I don't want to forget you... Não é nada contra você. Nem contra o gênero que você praticamente criou. O problema é quem veio depois, se achando o dono do pedaço, mudando tudo e esnobando os fundadores, achando o que você e a sua patota faziam, velho, desnecessário, inútil. É como falar de religião: o problema não é, nem nunca foi com Deus. É com quem fala em nome Dele.

Que os deuses do Rock n' roll, que um dia nos permitiram ouvir momentos antológicos como The song remains de same (Led Zeppelin), Ziggy Stardust and the spiders from Mars (David Bowie), As quatro estações (Legião Urbana), The Joshua tree (U2) e Appetite for destruction (Guns n' Roses), só para ficar no básico - no meu básico, é bom que se diga! - retornem das cinzas onde se encontram. Por favor. Esse ano ainda, se possível! Eu agradeço desde já.

 

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