Somos todos cafajestes e não percebemos?

7Recompensas

(13 Reasons why e a moral humana)

Todo semestre, quando estream novas séries da tv americana exibidas nos canais a cabo nacionais ou disponibilizados em sites como o Netflix (menina de ouro da atualidade), é a mesma história. Há sempre uma série em específico que ganha os louros da fama, que chama a atenção de um grande parcela de público. Seja por sua qualidade técnica, seu elenco impecável ou pela polêmica que gera.

A escolhida desse primeiro semestre de 2017 é, sem sombra de dúvidas, 13 Reasons why, baseada no romance homônimo do escritor Jay Asher. E sua fama se deu por razões mórbidas: muita discussão, debate e até mesmo ofensas acerca do tempo que cerceia a trama. No caso, o suicídio. Um montante expressivo de pessoas reclamando abertamente da maneira como os produtores - dentre eles, a cantora e atriz Selena Gomes, ex-namorada do astro teen Justin Bieber - trabalharam a questão do suicídio na produção. Para muitos, vale destacar, a abordagem é reprovável.

Do que trata 13 Reasons why, para causar tanto rebuliço? Vamos aos fatos:

Hannah Baker é uma adolescente em plena época do high school que foi escolhida (acredito que esse é bem o termo) por seus colegas de campus para ser "a vadia da escola". Se há uma coisa que as instituições de ensino americanas fazem bem é mostrar o quanto elas são segregacionistas (em todos os sentidos). E por uma razão cultural: popularidade. Nenhum povo no mundo é tão obcecado por popularidade e status quanto o norte-americano. E é dessa necessidade de tornar-se popular que se criam personagens os mais injustos e covardes.

Hannah Baker desejou fazer parte desse mundo. Isso é um fato. Ela gostaria, como tantas outras, de ser escolhida como a rainha do baile. O problema? Ela não se encaixa no perfil, no padrão que a escola deseja. E por isso, é concomitantemente transformada em "a vulgar", "a piranha", "a que passa de mão em mão", entre tantos outros apelidos e tweets e mensagens escritas nas portas dos banheiros. O bullying, sempre ele, chega a um nível catastrófico. Resultado: Hannah se mata. E é nesse momento que começa a verdadeira história da série.

Não, ela não poderia ver sua história acabar assim, dessa forma. Ela não poderia permitir que os outros, os que lhe fizeram tanto mal, escapassem livres. E por isso grava 13 fitas-cassete narrando toda a história de sua tour de force juvenil, acompanhada de outras tragédias que testemunhou durante esse período. E essas fitas vão passando de mão em mão (as mesmas mãos que a bolinaram, julgaram, difamaram) até que chega em Clay Jensen, provavelmente o único rapaz em todo o campus que a olhou de forma verdadeira, que a respeitou como mulher.

Entretanto, os demais - os agressores, difamadores, bolinadores - formam um clã (como todo grande grupo de covardes). E eles não podem permitir que Clay rompa com o pacto feito por eles de deixar tudo para lá, de deixar o passado no passado. Não. Isso é definitivamente impossível.

Contada de forma não-cronológica, alternando flashbacks e cenas em tempo presente, Brian Yorker (criador do programa) constrói uma narrativa de vingança por vezes confusa. É preciso admitir: 13 Reasons why não prima por um roteiro excelente. Pelo contrário, a história soa em muitos momentos, pelo ritmo como é contada, repetitiva em excesso e bem poderia ser enxugada pela metade. Ele apela para sentimentos típicos da juventude em qualquer lugar do mundo, como liberdade e confiança. Empurrando o sofrimento das pessoas machucadas no processo para debaixo do tapete.

Porém, há um tema que precisa ser discutido com avidez na série e, no entanto, não foi levado em consideração por nenhum dos críticos que condenaram a série por sua postura vingativa e perigosa. Trata-se da questão do cafajestismo social cada vez mais presente na sociedade e de maneira cada vez mais prematura. Os adolescentes de 13 Reasons why são feitos da mesma matéria-prima que forjou grandes nomes da mídia e do mundo das celebridades, como Mark Zuckerberg (criador do facebook), Sean Parker (criador do Napster) e o próprio Justin Bieber citado acima. Nomes esses que, cá entre nós, não primam (nunca primaram) pelo seu caráter.

Parece simplesmente impossível para os pais desses adolescentes e a sociedade como um todo admitir que o mau caratismo é um mal social que vem ocorrendo cada vez mais cedo. "São apenas jovens", "é apenas uma fase", "não passam de garotos", "não foi de propósito", parecem à primeira vista considerações mais louváveis para justificar seus atos. Sinto muito, mas... Não. É no high school que nascem as primeiras inimizades, aqueles que o ensinarão os covardes e maldosos a se posicionarem de forma maldosa, diabólica, irracional. E a única coisa que o tempo ensinará a essas pessoas é que, com o tempo, tudo ficará pior, maior, mais grave.

Mas isso é esquecido, deixa-se para lá, é preferível não ver, não interessa aos olhos e ouvidos dos demagogos, os mesmos que hoje rezam a cartilha de mandantes do mundo e das vidas alheias. A eles toda a glória. Aos demais, o esquecimento. Será que no fundo somos todos assim? Meliantes? Culpados? E nem percebemos, tão natural é a prática?

Moral da história (se é possível haver uma nessa trama): 13 Reasons why não é o grande espetáculo que promete. Nem de longe. Na verdade, talvez funcionasse melhor como minissérie - fiquei sabendo que uma segunda temporada vem por aí e acho um tanto desnecessário! -, num formato mais enxuto. Contudo, sou grato a Netflix por expor tal assunto e me fazer pensar além dele. Pensar nos reais culpados.

Todos acusam, condenam, humilham Hannah Baker. Muitos a transformarão em símbolo, musa, libelo de uma geração. Mas é preciso não esquecer nunca de quem ataca. Pois eles farão de novo. E de novo. E de novo. E enquanto ficarmos calados, enquanto não os apontarmos, eles sempre terão o caminho todo livre para eles. Até quando?

 

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