Deus contemporâneo

  • 03/06/2017
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Pequeno texto que aborda a religiosidade contemporânea e suas principais consequências

SIMBOLOS

 

 

Os principais personagens que protagonizaram o pensamento filosófico contemporâneo foram Kant e Comte e através de caminhos diversos, esboçaram o conceito de conhecimento, e mais particularmente o conhecimento científico.

 

Com Kant e Comte, o conhecimento científico reduziu-se a um ponto que passou a identificar-se com o que é empiricamente dado ou observável. E, ainda passou a ser a única forma de conhecimento válido, o que tão bem expôs a física e a matemática de Newton que trouxeram paradigmas até hoje vigentes nas ciências dos fenômenos e nas exatas.

 

A delimitação do conhecer tão influenciada pela Física, trouxe a exclusão de Deus como objeto de conhecimento. Até porque não se pode encontrá-lo empiricamente como um dado, e nem tampouco pode ser demonstrado por fórmulas matemáticas ou exatas. Portanto, toda teologia natural passou a ser uma especulação pouco útil.

Assim, Deus não tem qualquer conceito, portanto não é objeto de conhecimento e todas as ponderações são abstratos e intangíveis.

Os principais pensadores cristãos se valeram dos filósofos gregos, Platão e Aristóteles para elaborarem a metafísica cristão. E mais tarde tal práxis veio aperfeiçoar-se cunhando-se na escolástica um pensamento próprio.

 

Todavia, notamos que diferentemente do uso que os cristãos fizeram dos gregos, a utilização que os modernos fizeram dos pensadores cristão, conforme a própria história da filosofia atesta, fracassou.

 

As leis da escolástica eram as leis do ser, tornaram-se máxime em Kant, onde tão somente as leis da mente e como este pensador restringiu nosso conhecimento ao que é empiricamente dado. De maneira que, o nosso conhecimento não só começa pelos sentidos (como defendiam os escolásticos) mas termina na ilha da experiência, no sentido de que não podemos aplicar as categorias do nosso entendimento, senão as intuições empíricas correspondentes.

 

Já para Comte, pelo menos teoricamente, os primeiros princípios do nosso entendimento, que Kant já havia negado serem princípios do ser, são praticamente todos relegados a mais ínfima consideração, já que na ciência positivista todo conhecimento resta atrelado aos fenômenos e às imagens sensíveis.

 

A ideia de Deus tão francamente negada pela era contemporânea continuou a ser um fato patente da consciência humana. E ante aos questionamentos da própria razão, terá que admitir outro nível de conhecimento distinto do da ciência experimental. Ou o conhecimento como metafísica existencial, muitas vezes esquecidos pelos cientistas.

 

Se a ciência se torna uma firme barreira para o questionamento metafísico, volta-se contra si mesma, pois se põe contra os fatos que não podem ser negados de modo razoável, posto que são evidentes.

 

A partir deste momento, começaremos a defender um retorno à metafísica, e procuramos salientar seu autêntico valor, o de um conhecimento necessário e universal, que simultaneamente não pode ser negado pela ciência, posto que não seja contrário à ela, uma vez que é o seu próprio fundamento.

 

O problema religioso consiste em saber o porquê de as coisas existirem e ainda o porquê de acontecerem como acontecem. São, pois, perguntas existenciais, que exigem respostas igualmente existenciais. Assim, não se pode buscá-las e nem exigi-las de um cientista. E podem e migram de religião a fim de se tornarem objeto de estudo de uma metafísica existencial.

 

A própria metafísica conhece seus limites, e o fim da metafísica representa o começo da verdadeira religião.

 

É verdade que o pensamento grego não galgou por seus próprios métodos chegar ao Deus cristão. E, nem poderia. Afinal, o filósofo cristão tal como Agostinho e Tomás de Aquino preocuparam-se fervorosamente em conciliar a metafísica grega com a teologia cristã.

 

Os doutores cristãos utilizaram a linguagem de Platão e de Aristóteles para tentarem resolver problemas que nunca foram ventilados pelos gregos. Entre as diversas tentativas para se resolverem as questões colocadas com o advento da Revelação cristão à luz da metafísica grega, a mais bem-sucedida foi a de Tomás de Aquino.

 

Analogicamente, mas de formas diferentes o mesmo acontecera com os pensadores da modernidade, tais como Descartes e Leibniz que eram cientistas, e não tinham uma metafísica própria. Tentaram organização uma visão de mundo que englobasse de uma só vez, a terminologia oriunda da metafísica escolástica e a nova ciência então recém-nascida.

 

Ambicionaram descrever o mundo da ciência do século XVII através da técnica da escolástica. Só desta forma conseguimos entender o recurso e a utilização das expressões medievais encontradas em obras como Descartes, Leibniz, Spinoza e Locke.

 

Afinal a diferença notável entre a filosofia moderna e a filosofia escolástica é que esta derradeira conseguiu, transfigurando a filosofia grega, chegar, através da razão, ao Deus cristão, enquanto àquela coube um indubitável retrocesso que correspondeu a perda do movimento de ascensão até o Deus dos cristãos.

Enquanto Tomás de Aquino provou que o Deus dos filósofos era o mesmo Deus do cristianismo. Descartes e outros conseguiram apenas separar o Deus dos filósofos do Deus dos cristãos, visto como subprodutos resultantes da decomposição filosófica do Deus cristão vivo.

 

Kant apesar de pietista promoveu corte visceral. Pois para ele, somente são passíveis de conhecimento aqueles objetos que estiverem submetidos às formas puras de sensibilidade, espaço e tempo. Mas, esse não é o caso de Deus. Posto que não seja um objeto acessível a nenhuma das formas puras de sensibilidade. Não sendo possível aplicar nenhum das categorias de entendimento, inclusive as de causalidade. Logo, Deus não é objeto de conhecimento.

 

Segundo Kant, na faculdade silogística, de unificar a totalidade dos conhecimentos. A síntese maior é que provém, a ideia de Deus. Contudo, não tem qualquer intuição empírica correspondente, não passa de uma ideia, tendo apenas uma função de síntese e meramente reguladora.

 

Não é apreendido nas formas a priori da sensibilidade, do espaço e tempo.

 

Em Comte, a ruptura ainda fora mais ortodoxa pois para ele a verdadeira ciência deve se limitar a buscar conhecer como as coisas acontecem. Não deverá, pois, interessar à ciência, saber por que elas acontecem. Por conseguinte, a noção de causa não tem mais utilidade nenhuma para a ciência. De fato, se para Kant, Deus, por não se encontrar no espaço e tempo, não pode ser enquadrado na categoria de causalidade, para Comte, ao contrário, a própria causalidade não tinha mais função para a ciência. Os cientistas nunca se perguntam a si próprios por que as coisas acontecem, mas como é que elas acontecem.

 

Realmente com o advento do criticismo kantiano e do positivismo de Comte fica suspensa a prerrogativa de inquirir a razão por que as coisas são e a razão por que elas são o que são.

 

 

Ora deslegitimar tais questionamentos, que se encontram na seara da metafísica da causalidade, é bloquear talvez a única via que dispomos para ter acesso a Deus por meio da razão.

No que tange à filosofia, o verdadeiro obstáculo entre o nosso tempo e a filosofia tomásica começa com o surgimento da filosofia kantiana. Mas, Deus enquanto ideia se impõe espontaneamente à razão humana e perdura.

 

A crítica positivista aponta que a ideia da divindade procede de um estado primitivo da humanidade. Seriam vestígios de uma mitologia vetusta da nossa história ou da nossa educação religiosa. A ideia de Deus não nasceu da mitologia, e nem tampouco da nossa educação religiosa.

 

A religião não explica a fé em Deus, mas a fé na existência da divindade é que explica a religião. De resto, também a mitologia não explica o sentimento da existência de um ser supremo, ao contrário, é a mitologia que encontra a sua razão de ser neste sentimento de uma presença misteriosa.

 

Existe uma noção comum de Deus existe como fato praticamente universal, cujo valor especulativo pode ser contestado, mas cuja existência não pode ser negada. O único problema para nós continua a ser determinar o real valor desta noção.

 

Muitos estudiosos dos mais variados ramos da ciência e em diferentes períodos da história que assinalaram a universalidade da existência de Deus e do fenômeno religioso entre os povos da humanidade.

 

 

A teologia natural não depende da ciência positivista para conseguir suas respostas e exatamente pelo fato de que a ciência positivista se mantém dentro do que é empiricamente dado.

Ademais, como pode a ciência vir a responde a um questionamento que nem sequer vem a formular?

 

Como julgar a pertinência ou a validade, daí a razão da teologia natural recorrer a uma metafísica existencial e obedecer aos seus próprios métodos.

 

A verdade é que quando os cientistas resolvem responder questões ou problemas não-científicos por meios ou métodos científicos, chegam apenas à categoria do mistério.

 

Assim como quando os religiosos tentam responder problemas científicos com métodos metafísicos, chegam apenas até as inocentes mitologias.

 

Com efeito, os cientistas tornam o n menos misterioso, dizendo-nos o que as coisas são e como é que estas acontecem. A função da ciência não é atestar o mistério do universo, antes, é apenas torná-lo menos misterioso.

 

Nem todo desconhecido é misterioso. Apesar de poder parecer para aqueles que buscam conhecê-lo de forma equivocada.

 

Reconhecemos que a ciência vem extrapolando os seus limites quando aborda a questão da origem do homem. E tenta explicar o homem, ser livre e pensante, sai da sua competência e passa para o campo existencial, que só a metafísica cabe responder.

 

Questiona-se se seria científico explicar a existência do homem através de uma série de acidentes, em que o aleatório e o improvável reinam. A verdade é que simplesmente, o problema da existência do homem e a astronomia moderna não tem rigorosamente o que informar.

 

A ciência positivista afirma sobre a origem da ordem e da finalidade do mundo, responde que, em última instância, isto se deve ao acaso. E, recorrem as leis mecânicas para explicarem a gênese da organização de todas as coisas. E quando novamente questionamos como surgiram tais leis mecânicas, que são a razão de ser de toda a estrutura do mundo, os positivistas se encontram encurralados a admitir o acaso como a origem de tudo.

Ao tentarem responder a tal pergunta extrapolam a ciência e adentro no campo da metafísica, e mostram que a ciência pode explicar tudo e não carece mais das muletas da metafísica. E, resolutos afirmam, com contumácia, que tudo provém do acaso.

 

Precisa ter coragem para ir para além da ciência e da física e ser fiel à razão, e admitirmos as causas finais e enxergá-las como não científicas. Não mutilemos a mente humana em nome da ciência, particularmente a ciência positivista.

 

A existência de uma intencionalidade é a única capaz de explicar a organização dos corpos físicos. E os mistérios se revelam metafísicos.

 

A insistência da ciência em negar a metafísica, e ainda tentar responder as questões que não lhe dizem respeito, traz o retorno à mitologia. Assim num mundo repleto de deus, na evolução olímpica, na lúcida ortogênese, e no benevolente progresso, o conhecimento se torna disforme e amorfo.

 

A ciência que não sabe reconhecer seus limites e busca a todo custo responder a problemas existenciais que não são da sua alçada está fadada a se tornar uma religião ou uma teologia miserável. O fato dos contemporâneos serem agnósticos, mas são teólogos e pouco judiciosos.

 

A ciência pode explicar muitos fenômenos e pode mesmo um dia nos explicar o que todas as coisas são, mas jamais conseguirá responder-nos por que as coisas são e por que elas acontecem. E a razão disso é muito simples: a ciência não tem capacidade, nem competência para formular estas perguntas. Por conseguinte, não tem direito também de querer suprimi-las.

 

Passemos a considerar, finalmente, suposto que admitido, o valor do conhecimento filosófico e metafísico.

 

É questionável o conhecimento que não é científico, e mesmo o conhecimento metodológico ou metafísico, qual será seu valor?

 

A priori, é preciso afirmar que se tomarmos por científico somente aqueles conhecimentos adquiridos pela pura e simples observação dos fenômenos, concedemos, de bom grado, que a nossa demonstração da existência de Deus não é e nem pretende ser científica.

 

A nossa demonstração parte justamente do fato de que a própria experiência sensível, pela sua contingência intrínseca, exige que nos elevemos a um plano propriamente inteligível, onde possamos encontrar uma causa que seja a razão suficiente da existência e da inteligibilidade da própria realidade sensível.

Esta ordem mais elevada de cognoscibilidade é, o que denominamos, precisamente, de ordem filosófica ou metafísica.

 

Em outras palavras, a nossa demonstração se nos ativermos ao conceito unilateral de ciência que hoje vigora não só admite que não seja científica, como até exige que não seja tida por científica, visto que ela ultrapassa de muito ao plano dos fenômenos.

 

Não há como dar uma demonstração científica da existência de Deus, se por demonstração científica se entende, como uma operação que não exceda os limites do campo da observação e da experiência.  Porém, se nossa razão nos mostra que os seres e os fenômenos, objetos da experiência, não se explicam por si mesmos; se vê e compreende que têm fatalmente necessidade de uma causa que os faça reais e inteligíveis; se estabelece que esta causa somente se possa encontrar fora do campo da observação e da experiência; teremos uma demonstração não filosófica no sentido moderno da palavra, senão filosófica ou metafísica.

 

Questiona-se mais uma vez: qual é o valor da demonstração filosófica ou metafísica?

Ter-se-ia então que afirmar que o valor de uma demonstração estritamente filosófica ou metafísica é absoluto, pois suas conclusões procedem de premissas universais e necessárias.

 

De fato, embora as ciências modernas neguem lançar mão de princípios metafísicos, isto é apenas verdadeiro em parte. É simplesmente um fato que os princípios de razão de ser, causalidade, finalidade, encontram-se, ainda que veladamente, presentes em todas as ciências modernas.

 

Em verdade, o que elas negam é que estes princípios sejam metafísicos ou que possam ser usados legitimamente além de toda experiência possível. Mas, todas as ciências, de alguma forma, valem-se deles.

 

Todos estes princípios estão ligados ao princípio de identidade e de não contradição, e alguns o chamam simplesmente de princípio de contradição, princípio supremo da razão, não só por ser o primeiro com o qual nos deparamos tão logo entramos em contato com a mais imediata experiência sensível, senão também porque todos os demais o pressupõem de alguma maneira.

 

Ora, o princípio da identidade ou de não contradição não é só o primeiro princípio da razão humana, mas o é da própria inteligibilidade.

 

Em verdade, é princípio universalíssimo da própria realidade, mas não o único, pois afirmar ser o único seria cair na falácia de Parmênides[1].

 

Pois uma coisa é inteligível, na medida em que é. Destarte, quando se afirma, por exemplo, que o cavalo branco de Napoleão é preto, não se está apenas infringindo uma regra racional, mas pronuncia-se como ininteligível.

 

E, não apenas. Quando se fala doutro modo, que o cavalo branco de Napoleão não é preto, não se está apenas respeitando uma regra lógica, mas afirmando que o contrário desta afirmação é não somente um absurdo lógico ou algo inconcebível, mas também algo irrealizável e impossível de existir como é um círculo quadrado, visto que o cavalo é branco.

 

Daí, violar o princípio da identidade ou de não contradição é violar não somente a lógica, mas a inteligibilidade, e, antes de mais nada, o ser, a realidade. Daí decorre o ridículo de se tomar os primeiros princípios da razão como apenas princípios subjetivos, simplesmente como leis da mente e não as leis do ser.

 

Pode-se afirmar que o princípio de identidade possui, sob certo ponto de vista, uma prioridade em relação ao de não contradição, uma vez que este último não é senão uma formulação negativa do primeiro e toda negação sucede a uma afirmação.

 

Da maneira mais simples, podemos formular o princípio da identidade assim: o ser é o ser ou todo ser é ser.  O de não contradição pode ser formulado assim: o ser não é o não ser ou nenhum ser é não ser.

 

[1] Falácia lógica que resulta da comparação de tempos diferentes, por exemplo, estabelecer a certeza de certo futuro baseando-se no presente, ou fazer juízos de valor acerca de um passado longínquo estabelecendo como paradigmas de análise os valores do presente.

Parmênides foi filósofo grego que se notabilizou por defender a ilusão da passagem do tempo que consiste em analisar o passado à luz dos conhecimentos que temos hoje. E por ser um bom historiador evita quando faz uma análise histórica.

Não podemos olhar para o passado e analisar este tipo de atos (como assassinatos e desatinos) à luz de nossa moral atual e de nosso Direito, porque, entretanto, a filosofia evoluiu e com advento da Revolução Francesa, surgiram personalidades como Voltaire e Rousseau entre muitos outros que contribuíram decisivamente para moldar e instituir o Estado de Direito que temos hoje, em que a lei é aplicável a todos.

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