Interpretações sobre a definição alfabetização científica ou letramento científico.

  • 08/06/2017
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O modesto texto traça didaticamente a definição de alfabetização científica ou letramento científico, sublinhando a importância da disseminação do conhecimento científico em diferentes graus de aprendizagem.

 

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Palavras-Chave: Conhecimento Científico. Educação. Aprendizagem. Alfabetização científica. Letramento científico.

Abstract: The modest text traces the definition of scientific literacy or scientific literacy, emphasizing the importance of the dissemination of scientific knowledge in different degrees of learning.

Keywords: Scientific Knowledge. Education. Learning. Scientific Literacy. Scientific advice.

 

 

A produção acadêmica no Brasil sobre divulgação científica, na qual se insere o ensino de ciência, ainda se apoia muito em referências bibliográficas em língua inglesa. Predomina a tradução como alfabetização científica, e outros cogitam de letramento científico.

 

A entrada do termo letramento no campo de estudos da linguagem no meio acadêmico tupiniquim, há uma pluralidade de definições para tanto além de vários comentários de autores brasileiros sobre o ensino de ciências, o que propõe um diálogo do ensino de ciências com o jornalismo para explicar adequadamente a noção de letramento científico.

 

A divulgação científica é uma área de conhecimento sem uma tradição fixada em nosso pobre país, daí o porquê que maior parte da bibliografia de referência esteja vertida em língua estrangeira, notadamente o inglês. Até mesmo as pioneiras reflexões no Brasil sobre o tema que envolve não apenas o ensino de ciências, mas também como a divulgação científica lato sensu se dá, além das aulas presenciais, livros e material didático, museus, jornalismo, literatura e cinema.

 

Outra evidência é que os trabalhos brasileiros sobre a divulgação científica possuem como precedentes os estudos que tratam sobre as diferentes noções de cultura científica, (culture scientifique) na França e de public undestanding of science, no Reino Unido.

 

Longe de ser uma questão meramente terminológica, denota evidentemente uma expectativa com relação ao público, para os que usam a noção de conhecimento científico, e não apenas o entendimento da ciência, mas o envolvimento em questões relacionadas com ciência e a tecnologia. E todas essas noções ainda interagem com a tradição de estudos nessa área nos EUA, onde tem função principal a noção de scientific literacy.

 

A circulação da expressão scientifc literacy é forte e toma emprestada a noção dos estudos da linguagem e do ensino de língua portuguesa em área que ainda se encontra em fase de consolidação.

 

Aliás, uma das ferramentas do tradutor, o dicionário, apresenta como significado literacy, em língua inglesa, the state of being able to read and write, em português capacidade de ler e escrever.

 

Portanto, a expressão letramento só foi recentemente incluída no dicionário, e sendo pouco difundida fora do campo acadêmico específico que estudo o ensino da língua, não é de estranhar que literacy seja por ser, majoritariamente entendida e associada à alfabetização.

 

A autora Magda Soares[1], conta em sua obra intitulada “Letramento: um tema em três gêneros”, que o termo letramento, surgiu no discurso de especialistas da área, no Brasil, na segunda metade da década de 1980. A finalidade é basicamente promover a distinção entre o mero aprendizado da codificação da escrita, a alfabetização, e o impacto de seu efetivo uso em práticas sociais.

 

In litteris: A pessoa que aprende a ler e a escrever, que se torna alfabetizada e que passa a se tornar letrada, é diferente de uma pessoa que não sabe ler e escrever, posto que seja analfabeta. Ou sabendo ler e escrever, não faz uso da leitura e da escrita, portanto, é alfabetizada, mas não é letrada.

 

Já Angela Kleiman[2] em sua obra Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita, afirmar que podemos definir atualmente o letramento como conjunto de práticas sociais que usam a escrita enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos. Segundo a autora, entre essas práticas sociais, o uso da escrita na escola representa apenas um tipo de prática mais dominante, e sem dúvida, mas que desenvolve apenas certas habilidades e não outras.

 

Ainda de acordo com Kleiman, pode-se afirmar que a escola, é a mais importante agência de letramento, prática social, mas com apenas um tipo de prática de letramento, a alfabetização, o processo de aquisição de códigos (alfabético, numérico e, etc.) processo geralmente concebido em termos de uma competência individual necessária para o sucesso e promoção na escola. Já outras agências de letramento, como a família, igreja, a rua como lugar de trabalho, mostram orientações de letramento muito diferentes.

 

Entre as práticas de letramento estão ainda a leitura de jornais, revistas ou livros, a escrita de bilhetes, cartas ou listas de compra, no seio familiar, a leitura da Bíblia ou qualquer outro texto sagrado ou religioso, a leitura do jornal do sindicado, a escrita de correspondência, de possibilidades de práticas sociais de uso da escrita.

 

A essência da acepção de letramento vale-se do ponto de vista de estudos de linguagem e do ensino de língua, o impacto da leitura e da escrita por seu efetivo em práticas sociais, já aparecia nas discussões acadêmicas desde o final da década de 1950, nos EUA e de acordo com Rüdiger Lauglsch, in verbis: o ímpeto pelo interesse em letramento científico no final dos anos 1950 e provavelmente se deu pela preocupação da comunicação científica americana em relação ao apoio público à ciência a fim de responder ao lançamento soviético do Sputinik[3] (...).

 

No mesmo período, os americanos, novamente estimulados pela corrida espacial, passaram a se preocupar se seus filhos estavam recebendo o tipo de ensino que os capacitaria a enfrentar uma sociedade de crescente sofisticação científica e tecnológica.

 

De acordo com o referido autor, o termo scientific literacy é controvertido pelo fato de sua definição variar muito de acordo com o grupo de interesse e o público-alvo. Um desses grupos seria a comunidade voltada para o estudo de ciências, cujo público é os alunos do ensino básico, principalmente do nível médio. E, o envolvimento nesse letramento é motivado, ainda por questões relacionadas a metas de ensino de ciências, (isto é, por que ensinar ciências e que forma o conteúdo de ciências deveria tomar).

 

Outra motivação desse grupo seria a preocupação em como habilidades pessoais, atitudes e valores implicados pelas metas seriam incorporados com sucesso no currículo de ciências e efetivamente ensinados pelos professores.

 

Aponta o mesmo autor outro grupo de interesse que seriam os cientistas sociais ligados aos estudos da ciência, tecnologia, a sociedade e, sobre a percepção pública da ciência, com foco no público adulto. E, segundo tal autor, esse grupo de interesse estaria preocupado essencialmente com a extensão do apoio do público em geral à ciência e à tecnologia, assim como a participação do público em movimentos políticos na área de ciência e tecnologia.

 

Menciona, ainda, o mesmo autor, que tal grupo também envolve o jornalismo e os museus de ciência, cujo público abrange tanto adultos como crianças e adolescentes. Entre os principais objetivos desse grupo estaria dar oportunidades educacionais e interpretativas para o público em geral se familiarizar com a ciência.

 

Embora o autor, não dê tanta ênfase a esse grupo ligado ao campo da comunicação de ciência para o público em geral, talvez pelo fato de ele próprio ser da área da educação, e com destaque particular ao jornalismo, que pode potencializar a noção de letramento científico, na forma como é definido pelos autores e sugerindo até mesmo um diálogo entre o jornalismo e o ensino de ciências.

 

Benjamin Shen propôs três categorias para cientific literacy que não são excludentes entre si, mas distintas de acordo com o objetivo e a audiência. A primeira, de ordem prática, que envolve o conhecimento científico que pode ser utilizado para solver problemas básicos de saúde e de alimentação.

 

Aliás, Shen menciona o fato de ser comum em cidades da África, da Ásia e ainda a América Latina as mães darem mamadeira aos seus bebês, em vez de amamentá-los com o peito, o que teria impacto certeiro nas taxas de mortalidade infantil.

 

O letramento científico prático, segundo ele, poderia levar tais mãos a mensagem de que o aleitamento materno é o mais seguro e o melhor para seus bebês. E, o autor ainda afirma que a entrega de letramento científico prático para vasto número de pessoas que precisam dele é tarefa complexa e que requer um esforço conjunto em comunicação de massa. Assim, há referência ao grupo de interesse dos comunicadores de ciência voltados para o público em geral, no qual o jornalismo tem papel preponderante.

 

Já a outra categoria proposta por Shen que denominou de cívica, abrange o conhecimento necessário para compreender os problemas sociais relacionados à ciência, tecnologia e poder opinar sobre as políticas públicas de saúde, energia, alimentação, meio ambiente, recursos naturais e comunicação. Shen ainda aponta que tanto o público em geral quanto os seus representantes legislativos deveriam tomar decisões nos assuntos relacionados à ciência e a tecnologia baseados na análise de riscos e benefícios.

 

Para isso, Shen ainda defende que a maior exposição do público à ciência e, mais uma vez, menciona os meios de comunicação de massa:

“O relato de novidades científicas por rádio, TV e em jornais deveria aumentar tanto em quantidade quanto em qualidade”.

 

Em seguida, Shen, também trata do papel do ensino de ciências no letramento científico cívico. O ensino de ciências nas escolas primárias e secundárias também deveria ser mais efetivo a fim de fornecer a base para uma familiaridade duradoura com a ciência e a noção de suas implicações sociais.

 

A referida afirmação de Shen sobre o ensino de ciências afeta um ponto no sentido de que o letramento científico, bem como o ensino de língua materna e na aquisição da escrita não basta para aprender a ler e a escrever (ou seja, ser alfabetizado), mas, sobretudo fazer uso efetivo de escrita em práticas sociais (ser letrado), o ensino de ciências também deveria se preocupar entre outras coisas, com as implicações sociais da ciência e da tecnologia, com os riscos e os benefícios de cada avanço científico ou tecnológico, e não apenas de forma secundária, mas considerando a sua devida importância.

 

A outra categoria de letramento científico também proposta por Shen que ele denominou de cultural, compreende o desejo de conhecer a ciência enquanto a MAIOR realização humana.  Assim surge o encantamento com o conhecimento e melhor compreensão da realidade.

 

Laugksch em sua revisão conceitual de scientific literacy observa que o termo literacy é geralmente interpretado como a capacidade de ler e escrever, e isso talvez expliquem por que boa parte dos autores, especialmente no Brasil, opte por traduzi-lo como alfabetização. E, o autor acrescenta que, no entanto, as extensões desse termo, como exemplo, letramento digital, letramento cultural, letramento político, e ainda, letramento científico, sugerem que seus aspectos semânticos são muito mais importantes em tais extensões.

 

Assim, o autor classificou os trabalhos em três categorias conforme a interpretação do que vem a ser um sujeito letrado.

A) uma pessoa instruída.B) uma pessoa competente.C) uma pessoa capaz de atuar minimamente como consumidor e cidadão.

 

Entre os variados autores e instituições que Laugksch coloca nessa derradeira categoria, além de Shen, está mencionada a Associação Americana para o Progresso da Ciência, o que é equivalente a nossa Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SBPC[4]. Em 1996, o então presidente da Associação Norte-americana, Francisco Ayala, no World Science Report, relatório da UNESCO[5], defendeu que: o letramento científico entendido como um trabalho diário de conhecimento da ciência é tão necessário quanto à leitura e a escrita (letramento, no sentido geralmente entendido), para um modo de vida satisfatório no mundo moderno. Eu desejo sustentar o letramento científico é necessário para que haja uma força de trabalho competente, para o bem-estar econômico e saudável do tecido social e de cada pessoa, e para o exercício da democracia participativa.

 

Ayala, aliás, destacou que o letramento científico não quer dizer conhecimento detalhado de construtos científicos, tal como são transmitidos nos livros didáticos de física, química, psicologia, biologia ou genética. Segundo Ayala, não se espera que uma pessoa cientificamente letrada saiba a expressão do DNA é medida por moléculas de RNA transmissores.

 

Para ele, o objetivo do letramento científico é que a decisão de apoiar ou não um programa governamental na área de energia, por exemplo, não seja baseada na crença de que toda intervenção nos recursos naturais é prejudicial (ou, em outro extremo, benéfica) e nem no desconhecimento de que certas políticas envolvem a resolução de um problema, que pode ser de ordem econômica e social, mas acarretam outros que podem ser socioambientais.

 

É o caso, por exemplo, da construção de usinas, sejam estas nucleares, ou a base de carvão ou hidrelétricas.

 

A discussão sobre o letramento científico se iniciou, com a preocupação em conquistar o apoio do público às pesquisas científicas e tecnológicas, majoritariamente financiadas por recursos públicos e, por outro lado, com a preocupação das famílias com ensino que capacitasse seus filhos para competir em um mercado de trabalho cada vez mais modificado pelos avanços científicos e tecnológicos, as últimas décadas tem direcionado tal debate para a necessidade do público, bem como seus representantes nas tomadas de decisões políticas terem uma base suficientemente sólida para a avaliação de benefícios e de riscos de cada avanço científico e tecnológico, das questões éticas envolvidas, dos impactos socioambientais comparados aos impactos econômicos, entre outras questões envolvendo ciência e tecnologia.

 

Nota-se que o maior número de trabalhos publicados em torno do tema no Brasil é o de ensino de ciências, em que predomina o uso do termo alfabetização científica, E Attico Chassto da UNISINOS é um dos autores que mais publicou sobre o tema, e em seus textos defende que o ensino de ciências seja revisto, e não gire mais em torno de decorar conceitos e classificações que logo serão esquecidos e relativiza e a visão positivista de ciência tida como verdade definitiva.

 

E, Chassot, afirma: não podemos ver na ciência apenas uma fada benfazeja que nos proporciona conforto no vestir e na habitação, nos enseja remédios baratos e mais eficazes, ou alimentos mais saborosos e mais nutritivos, ou ainda facilita nossas comunicações. Ela pode ser, também, uma bruxa malvada que programa grãos e animais que são fontes alimentares da humanidade para se tornarem estéreis a uma segunda reprodução.

 

Chassot expõe que o ensino de ciência se volte para inclusão social, propondo uma alfabetização científica que seja capaz de propiciar a leitura do universo. Chassot parece considerar o conhecimento tradicional inválido, já que não é científico, não fora produzido no meio acadêmico de acordo com os rigorosos métodos de pesquisa e não fora submetido à avaliação dos pares, não possuem a chancela de publicações em periódicos ou em livros, não passou por nenhum congresso científico, em suma, do ponto de vista científico, trata-se de um conhecimento produzido por analfabetos em ciência, gera no campo do ensino de ciências o mesmo tipo de problema já antes apontado por estudiosos da linguagem, em relação ao ensino da modalidade escrita da língua.

 

Aliás, o distanciamento da língua oral e a língua escrita, devido à especialização e funcionamento diferenciado de ambas configura uma situação de duas línguas, não de línguas de contato, mas de línguas em conflito. Trata-se de duas modalidades que constituiriam variedades discursivas da mesma míngua sendo que cada uma tem status e prestígios diferentes e, que também teriam diferenças decido às suas funções diferenciadas na sociedade.

 

O ensino da língua pátria[6] tradicionalmente, com raras exceções, deixa de abordar a variedade linguística que existe em toda e qualquer língua, seja a variedade de regiões, sotaques, por faixa etária, por estratificação social, entre outras, apenas aborda a modalidade padrão da língua, e a escrita, a norma culta.

 

E, como o ensino, de uma forma geral e não apenas o de língua, é pautado, frequentemente pela dicotomia de erros e acertos, toda e qualquer variação da língua que seja em desacordo com a norma culta, com a variedade de maior prestígio, com o padrão está errada, deve ser esquecida e substituída pelo que seria o certo.

 

Se um professor de língua pátria, diz ao aluno que ele não sabe português, que ele precisa estudar mais, para enfim dominar a língua, como se o português fosse apenas a que se aprende na escola, não se poderia esperar outra coisa, desse aluno, a não ser a sensação de que está sendo tratado como estrangeiro, dentro de seu próprio país.

 

É bem comum, que essa situação chama de línguas em conflitos, tenha como efeito a aversão do aluno à disciplina de língua portuguesa e ao professor dessa disciplina, o que só torna ainda mais difícil o seu acesso à modalidade padrão da língua escrita, à escrita e à norma culta.

 

Observa-se que a hierarquização de saberes e a relação de poder entre o professor no papel de transmissor de um conhecimento considerado como o único legítimo, ou seja, o detentor de maior prestígio, e relega ao aluno o papel de mero receptor desse conhecimento não se restringe ao ensino da língua pátria, e nem tampouco ao ensino de ciências.

 

É algo arraigado no meio tanto que o historiador francês Dominique Julia, chamou de cultura escolar. E, ainda a pluralidade de cultural, em que uma delas estaria aqui associada ao ambiente escolar, consideram as culturas, sistema de valores, de representações e de comportamentos que permitem a cada grupo identificar-se, localizar-se e agir num espaço social que o cerca.

 

Há quatro décadas que já vem sendo debatida a história cultural, mas o conceito de cultura escolar é relativamente recente e sendo algo distinto e com relações pacíficas ou conflituosas com outras culturas, como a religiosa, a política além da popular.

 

Assim, para Julia, a cultura escolar representaria tanto o conjunto de normas que definem os saberes a serem ensinados e as condutas a serem incorporadas quanto também o conjunto de práticas que permitem a transmissão desses saberes e a incorporação dessas condutas.

 

Julia refere-se a tradições sedimentadas ao longo do tempo, modos de agir e de pensar, transmitidos de geração em geração.

 

Toda e qualquer cultura está sujeita a mudanças no tempo, também a cultura escolar tem alguns valores que se conservam muito arraigados, como a desvalorização do saber do aluno e a supervalorização de certos saberes canônicos tidos como obrigatórios no repertório a ser ensinado. Exemplifica-se o etnocentrismo na relação entre o professor e o aluno ou o conflito, ainda que disfarçado e existente entre a cultura escolar representada pelo professor e a cultura popular representada pelo aluno.

 

De certa feita, o professor de literatura brasileira cogitava em sua aula sobre a obra Cinco Minutos, de José de Alencar, tratando, entre outras coisas, da questão das coisas efêmeras e dos lapsos de tempo que podem ser significativos para toda a vida.

 

Uma aluna comentou que uma música da dupla Bruno e Marrone cogitava de coisas como aquelas que estavam comentando, e até cantou um trecho da música na sala de aula.

 

Ao comentar o episódio com seus colegas, na sala de professores, causou indignação de seus colegas. Mas, ao invés de se indignar, o professor poderia ter visto ali uma oportunidade de diálogo entre a cultura dominante e a cultura popular e minoritária, não no sentido de ser a que envolve o menor número de pessoas, mas a de ser de menor prestígio.

 

Se ele tivesse a intenção de que a aluna conhecesse algo além da música de Bruno e Marrone, poderia ter proposto de lerem juntos trechos do livro de Alencar e buscar elementos de ligação ou correspondência o que haveria na letra da música caipira.

 

Outro autor, Wildson dos Santos, da UnB[7] é um dos poucos que têm optado ao uso do termo letramento científico. Oriundo da química, é dessa área do conhecimento que extrai um exemplo do que seria exatamente letramento científico, com função social, na formação de consumidores e cidadãos críticos conforme define Laugksch.

 

Afinal as pessoas lidam diariamente com dezenas de produtos químicos e tem de decidir qual devem consumir e como fazê-lo.

 

Essa decisão poderia ser tomada, considerando não apenas a eficiência dos produtos para os fins desejados, mas inclusive seus efeitos sobre a saúde, seus efeitos ambientais, seu valor econômico, as questões éticas relacionadas à sua produção e comercialização.

 

Por exemplo, poderia ser considerado pelo cidadão, na hora de consumir determinado produto, se na produção é usada a mão de obra infantil ou escrava, e se em algumas fase, da produção ao descarte, houve a geração de resíduos que agridem o ambiente, se ele é objeto de contrabando ou de outra contravenção e, etc...

 

Existe, portanto, uma consonância entre a escolha do pesquisador da UnB por letramento, a definição de letramento científico feita por Shen e as descrições do que se pode esperar de uma pessoa cientificamente letrada ou alfabetizada, como consumidor e como cidadão, feitas por Laugksch e por Ayla.

 

Desta forma, assim como na discussão internacional envolvendo scientific literacy nas derradeiras décadas, esse exemplo vai à direção do embasamento do público para realização de decisões em relação aos benefícios e riscos ligados à ciência e para seu posicionamento diante dos impactos sociais e ambientais dos avanços científicos e tecnológicos.

 

Trazer para a seara da divulgação científica em geral e para o campo do ensino de ciências em particular as diferenças entre a alfabetização e o letramento e suas origens conceituais emprestadas do campo de estudos da linguagem e do ensino de línguas, buscou-se apresentar argumentos em prol do que seria interessante adotar, pensar e refletir sobre o letramento científico, sugerindo que o diálogo entre os letrados e não letrados cientificamente pode ser muito mais frutífero que a mera transmissão unilateral e autoritária de um conhecimento do especialista para o não especialista.

 

E também que o jornalismo, além de abordar questões sociais relacionadas à ciência e à tecnologia, seus impactos, os benefícios e os riscos, podem ser usados pedagogicamente em diversas disciplinas e nos variados níveis de ensino.

 

 

Referências

CUNHA, Rodrigo Bastos. Alfabetização científica ou letramento científico? interesses envolvidos nas interpretações da noção de scientific literacy. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782017000100169   Acesso em 28.4.2017.

AYALA, F. J. Introductory essay: the case for scientific literacy. World Science Report, Paris: UNESCO, 1996. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001028/102819eo.pdf Acesso em 02.06.2017.

CHASSOT, A. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro: ANPEd; Campinas: Autores Associados, v. 8, n. 22, p. 89-100, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n22/n22a09.pdf Acesso em 02.6.2017..

KLEIMAN, A. B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. In: ______. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

LAUGKSCH, R. C. Scientific literacy: a conceptual overview. Science Education, Hoboken (Estados Unidos): John Wiley & Sons, v. 84, n. 1, p. 71-94, 2000. Disponível em: http://www.kcvs.ca/martin/EdCI/literature/literacy/Laugksch_Scientific_Literacy.pdf Acesso em 02.06.2017.

SANTOS, W. L. P. Educação científica na perspectiva de letramento como prática social: funções, princípios e desafios. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro: ANPEd; Campinas: Autores Associados, v. 12, n. 36, p. 474-550, 2007.

SHEN, B. S. P. Science literacy. American Scientist, Durham (Estados Unidos): Sigma Xi - Scientific Research Society, v. 63, n. 3, p. 265-268, May/June 1975. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/pdfplus/27845461.pdf Acesso em 02.06.2017..

 

Autores:

Diego Córdoba

Graduado em Sistemas de Informação.

Especialista em Tecnologia Educacional

e docência do ensino superior.

Pesquisador adjunto do INPJ.

E-mail: profdiegocordoba@gmail.com

 

 

Gisele Leite

Mestre em Direito.

Mestre em Filosofia.

Doutora em Direito.

Pesquisadora-Chefe do INPJ Consultora do IPAE Membro da ABRADE

E-mail: professoragiseleleite@gmail.com

 

 

[1] Magda Becker Soares, Graduada em Letras Neolatinas, em 1953, e doutora em Didática pela UFMG em 1962, atuou em pesquisas a respeito de alfabetização, letramento e práticas pedagógicas. Sua carreira tem como o maior legado, a influência em políticas públicas relacionadas à educação no Brasil, como o Programa Nacional Biblioteca na Escola. Considerada inovadora, na década de 1960, propôs que fossem utilizados textos de gibis, e revistas e textos cotidianos para o ensino da língua portuguesa. Autora de mais de 80 (oitenta) artigos científicos e 26 (vinte e seis) livros, é referenciada pelas obras de livros didáticos de língua portuguesa dos anos 1970 a 1990.Outro feito notável é o título de membro fundador da Faculdade de Educação da UFMG (FaE).Atualmente é professora aposentada, mas não se distanciou definitivamente da educação, mantendo um projeto em Lagoa Santa (MG), com foco no ensino e aprendizagem.

Em 2015, a professora Magda Becker foi condecorada, aos 83 anos, com o prêmio Almirante Álvaro Alberto concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Sendo até então apenas a terceira mulher a receber este reconhecimento e a primeira da área da educação, a professora foi premiada com a mais importante honraria nacional do setor de Ciências e Tecnologias fundado em 1981, que é dado anualmente.

[2] De nacionalidade chilena, Angela Del Carmen Bustos Romero de Kleiman, graduou-se em letras pela Universidade de Chile em 1967. Realizou seu mestrado e PhD, ambos pela University of Illinois em 1969 2 1974.

Coordenou a implantação do Departamento de Linguística Aplicada no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, e dos cursos de Mestrado e Doutorado do Departamento em 1982.

Tendo como área de concentração o estudo da escrita, compreensão da escrita e analise da interação na aula de português, tratando ainda de alfabetização de adultos e formação de professores, pela Universidade de Campinas (UNICAMP), Angela Kleiman escreveu diversas obras. Dentre elas em 2005, com o título “Preciso ensinar o ‘letramento’: não basta ensinar a ler e escrever?”, a professora reforça e esclarece as mudanças do conceito de letramento e sua correlação por vezes abordadas com o conceito de alfabetização.

Além da obra de 2005, a professora ainda teve papel relevante no cenário brasileiro na propagação e ampliação do conceito de letramento, com publicações como letramento em comunidades minoritárias, letramento para o local de trabalho, letramento e identidade e letramento digital.

 

[3] Sputinik 1 lançado em 4 de outubro de 1957 pela União Soviética foi o primeiro satélite artificial da Terra. Dando origem a corrida espacial travada entre a União Soviética e os EUA. Sputinik ainda em seu programa na agência russa contou com o lançamento do Sputnik 2 em 3 de novembro de 1957, com a presença da cadela Laika, sendo então o primeiro ser vivo lançado ao espaço, e versões que findaram no Sputnik 5 lançado em 19 de agosto de 1960 com os cães Belka e Strelka, quarenta camundongos, dois ratos e diversas plantas. Como maior legado o programa Sputnik, trouxe informações pertinentes sobre o envio e o reingresso na atmosfera terrestre de seres vivos, incluindo assim a possibilidade de trabalhar com vidas humanas no interior de seus foguetes.

[4] Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada na cidade de São Paulo foi fundada em 1948, objetivando contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico do País, disseminando o conhecimento científico por ações de divulgação científica e defendendo os interesses dos cientistas e a qualidade da universalidade da educação.

Com ações nos campos da cultura, Afro-indígena, inovação, Jovem, família na ciência, ciência e mulher e educação. A SBPC conta ainda com uma reunião anual, atualmente na sua 69ª edição para tratar de temas como inovação, diversidade e transformação.

[5] UNESCO, tendo o início de sua atuação com o Brasil datado em 19 de Junho de 1964, a UNESCO visa auxiliar a formulação e operacionalização de políticas públicas que estejam de acordo com os acordos traçados pelos estados-membros da instituição. Sendo esta responsável pela coordenação de uma cooperação internacional de educação, ciência, cultura e comunicação.

[6] Língua pátria é um conjunto de palavras e expressões idiomáticas, praticadas por uma nação. A língua portuguesa praticada no Brasil, sofreu suas últimas modificações em 1º de janeiro de 2016, objetivando a padronização ortográfica de língua portuguesa assinado em 1990 entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

[7] UnB, Universidade de Brasília fundada em 21 de Abril de 1962, é uma universidade pública localizada no Distrito Federal, cujo foi idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro e o educador Anísio Teixeira e obra arquitetônica de Oscar Niemeyer. Tendo sua criação autorizada pelo presidente da época, João Goulart em 15 de Dezembro de 1961, a lei sancionada nº 3.998, abrira caminho para a elaboração na Asa Norte do Plano Piloto da até então recente capital Federal da República Federativa do Brasil.Idealizada por Darcy Ribeiro para ser uma inovadora instituição de ensino superior, em sua proposta inicial tinha por característica a divisão de institutos centrais e faculdades. Com isso o estudante ingresso cursava as matérias do currículo básico nos primeiros anos e depois escolheria qual rumo em sua formação tomaria dentre professor, pesquisador ou profissional. No entanto, esta proposta sofreu uma dura modificação no período do regime militar brasileiro, onde à época duzentos docentes pediram demissão em ato único, como forma de protesto. Ação esta que ocasionou um replanejamento na instituição, mas sem decrementar o prestígio e o carácter inovador proposto em seu planejamento.

 

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