A língua “oficial” do Brasil

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(o país iletrado e o falar do dia-a-dia)

Depois que li recentemente o livro Viva a língua brasileira!, do escritor Sérgio Rodrigues (livro esse que resenhei aqui mesmo nesse canal), passei a prestar mais atenção na língua falada nas ruas, pelo povo. Eu sempre fui um fascinado por linguagem e idiomas de um forma geral e nunca me enganaram os intelectuais que defendem a ideia de que, já no fim do século XX, nosso povo falava melhor sua própria língua. Pura ilusão!

Vivemos num país onde, gostemos ou não, a língua oficial é a gíria, o embromation, o falso estrangeirismo. E nada mais. Poucos são aqueles os cidadãos que de fato conhecem minimamente a língua portuguesa. E digo mais: conheço gente que já me disse abertamente não aprender a língua justamente por ela ser portuguesa, portanto língua do colonizador. "Se a língua fosse de fato válida, seria brasileira", completou ele.

Um pequeno microcosmo da ignorância que reina em nossas terras...

Contudo, não desisti. E como disse no primeiro parágrafo: passei a prestar atenção nas ruas. Saber o que elas dizem, que ventos nos trazem... Ah meus caros amigos! Quem dera eu pudesse trazer de fato boas notícias para vocês, leitores. Pelo menos - devo confessar - me diverti bastante com o linguajar despojado de nossos irmãos.

Adoramos contrações (caô, coé, mó, aê, só para ficar no básico) e quando o dito falante pertence a um classe menos favorecida, então, é um festival delas. Outro fato que me chamou a atenção é que à medida que encerramos o século passado e adentramos o atual, as palavras foram diminuindo de tamanho na versão fala. É o caso de nóia em vez de paranóia e cerva no lugar de cerveja.

Os estrangeirismos mais óbvios (e já eternizados) não perderam lugar, como brother ao invés de irmão (excetuando-se casos mais particulares como São Paulo, por exemplo, onde é mais comum o uso de mano) e night representando noite ou, mais especificamente, balada, diversão noturna.

E as expressões populares? Aí é um capítulo à parte dentro deste mísero e amador artigo.

Passeie pelas feiras de rua, pelos botequins. Pare um tempo, uns 15 minutos, numa fila de banco, supermercado ou cinema. Chegue perto de uma banca de jornais repleta de leitores de empréstimo, desses que só conhecem as notícias do dia pelas manchetes de capa dos principais jornais do país. E aprenda. Acreditem: eu já conheci pessoas na época de faculdade que montaram suas monografias de graduação em cima do linguajar proposto por essa mesma gente.

Vamos a alguns exemplos básicos (e a minha tentativa de entendê-los):

Partiu - não tem a conotação de quebrar, arrebentar. E sim de combinar um encontro, fechar uma parceria ou mesmo ir embora para algum lugar. Muito comum nas redes sociais, normalmente associado ao símbolo cult do século XXI: o hastag. #partiu festa, #partiu academia, etc.

Já é - essa eu vou morrer sem entender completamente. Sempre entendi que quando alguma coisa é, pede um complemento. É o que, exatamente? Aqui, não. Demanda concordância, consentimento. "Vamos combinar um cinema para sábado? Já é".

Maluco - essa eu odeio. Nunca gostei da conotação que dão nas ruas à expressão cara. Maluco, para mim, é outro tipo de gente. É o desequilibrado, o perturbado mental... Repudio terminantemente seu uso.

Quico - ou: o que é que eu tenho a ver com isso? Obra-prima do dialeto informal tupiniquim. (não comparar com certo personagem do programa Chaves, exibido no SBT).

Com certeza - substituiu o sim, que se tornou simplório na visão de certas pessoas, cuja grande maioria (se você reparar bem no tom em que usa a frase), não concorda com você em nada. É apenas um livre pensamento. O povo evangélico adora. Às vezes acompanhado da terrível expressão amado.

Ninguém merece! - reflete o descontentamento geral com qualquer coisa ou pessoa. A cada dia que passa ganha mais popularidade na boca do povo, principalmente em tempos de corrupção em massa na política nacional.

Tamo junto - para amigos do peito, parceiros de longa data, irmãos muito ligados, sócios em empresas ou qualquer outro grupo de interesse que remeta à condição de amizade, coleguismo. Pode soar cansativo às vezes...

Eu poderia criar uma enciclopédia de termos dessa imensa viagem que é a língua não-oficial do país (tem quem diga que é a oficial) e ainda assim ficaria incompleta, inexata, pois é inesgotável. Anos atrás, ouvi a expressão anti-língua associada a esses termos ditos populares, mas achei exagerado e certamente o linguista Marcos Bagno - autor do best-seller do segmento, O que é preconceito linguístico? - me excomungaria, caso eu defendesse esta teoria.

Portanto, fica a dúvida. Na verdade uma certeza: tem uma língua oficial, facilmente encontrada em volumes gramaticais. E uma outra, não-oficial, de uso livre, sem barreira, que não está sujeita a correções, pois foi criada por uma parcela da população que não está interessada em academicismos ou teorias que mais parecem aprisionar a própria língua do que deixá-la fluir, de forma serena.

E caso não concordem, sinto muito: a língua nunca foi um território a ser administrado por quem quer que seja. Ela segue o seu próprio caminho, toma as suas próprias decisões, adapta as suas próprias regras ao cotidiano. E você, falante, pode embarcar nela ou não. Fica a seu critério.

 

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