Ele foi o resumo da minha adolescência

7Recompensas

(R.I.P John G. Avildsen)

O dia D chega para todo mundo, gostemos ou não. Não nos foi dado o direito à imortalidade. E cá entre nós: considero isso uma grande dádiva, tendo em vista o que o ser humano é capaz de fazer ao seu semelhante mesmo sendo um reles mortal. Contudo, em alguns casos, a partida soa melancólica, devastadora, retumbante. Principalmente quando o legado produzido pela pessoa repercutiu - e repercutirá - para todo o sempre.

O cineasta John G. Avildsen foi desses...

Não digo isso simplesmente porque ele "inventou" um dos maiores personagens da história do cinema hollywoodiano e mundial: o garanhão italiano vivido pelo ator Sylvester Stallone, o pugilista Rocky Balboa. Muito menos porque ganhou um Oscar concorrendo num ano repleto de marcos da história do cinema made in USA (Táxi driver, Rede de intrigas e Todos os homens do presidente).. Não, meus caros amigos e notórios cinéfilos!

Digo isso porque Avildsen foi a melhor tradução do que foi a minha adolescência nos anos 80 e 90, em meio a vinis, K-7s e fitas de VHS.

Muitos defenderão o diretor John Hughes - criador de clássicos hoje inesquecíveis, como Curtindo a vida adoidado, Clube do cinco, Gatinhas e gatões e autor do hoje eterno Esqueceram de mim - como o balauarte da minha geração. E não os repreendo. Longe disso! Hughes de fato foi um grande ensaísta da infância e da juventudade, e seus longas deixaram claro o quanto entendia do assunto. Porém, permaneço apegado à Avildsen.

E por uma razão muito clara: há sempre uma reflexão sobre a humanidade (e seus diferentes aspectos e deslizes) em seus longametragens. Seja nas franquias Rocky ou Karatê Kid (com o também icônico Daniel Larusso), seja em seus trabalhos mais autorais, como O poder de um jovem (onde o ator Stephen Dorff vive o também adolescente P.K, que se torna através do boxe uma esperança para a África), Avildsen sempre expôs em suas subtramas os dilemas sociais de sua época.

Meu filme preferido de sua lavra é, com folga, Meu mestre, minha vida. Morgan Freeman vive aqui o diretor de colégio Joe Clark - numa época em que filmes sobre escolas disfuncionais estavam muito na moda! -, que é perseguido pela direção da instituição por seus métodos nada ortodoxos. Joe entende seus alunos independente de julgamentos criminais ou políticos. Ele vive a realidade do cólegio, diferentemente de muitos demagogos que adoram criticar o sistema educacional, desde que estejam distantes dele, acomodados em suas salas com ar-condicionado. E por tomar o lado dos alunos, é perseguido, "convidado a se retirar".

Meu mestre, minha vida é o melhor exemplar do cinema social de Avildsen que, no entanto, soube flertar com a faceta entretenimento da sétima arte como poucos. Não à toa, torcemos por muitos de seus coadjuvantes: Sr. Myiagi, Paulie, Apollo Creed, Adrian...

John G. Avildsen faleceu no dia 16 deste mês, aos 81 anos, por complicações referentes à um câncer no pâncreas contra o qual vinha lutando nos últimos anos. Uma pena! O homem que se arrependeu durante toda a vida por não ter realizado ele mesmo a continuação de Rocky para assumir um outro projeto que não obteve a mesma repercussão da franquia, em voga até hoje através inclusive de seu spin-off Creed, partiu. E os fãs, nostálgicos, lamentarão eternamente.

Mesmo numa idade já avançada, ficava a expectativa: teria ele algo mais a nos apresentar de visionário? Teria ele dado, de fato, o seu máximo ou escondia ainda um ás na manga? Nunca saberemos. E provavelmente isso faça parte da mística por trás dos grandes nomes de hollywood: a sensação de que ainda poderiam fazer algo a mais.

Ficam meus sentimentos e, mais do que isso, minha gratidão a esse homem extraordinário que ajudou a formar o cinéfilo - e o cidadão - que me tornei com o passar das décadas.

Fique em paz, mestre!!!

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