Documentários inesquecíveis

3Recompensas

(filmes do gênero que povoaram meus pensamentos nos últimos anos)

Documentário. Do adjetivo "que tem valor ou caráter de documento". Do substantivo masculino "filme informativo e/ou didático feito sobre pessoas, animais, acontecimentos - históricos, políticos, culturais, etc - ou ainda sobre objetos, emoções, pensamentos, culturas diversas, etc". Normalmente associado ao gênero cinematográfico (mas não somente isso). A um leigo talvez bastasse tal explicação que, achei, acadêmica em excesso. Li em alguns lugares onde pesquisei o uso da expressão "compromisso da exploração da realidade" e confesso: não me agradou. Em nada.

Gosto de pensar no documentário como gênero de cinema a partir de janelas. Janelas para entender um pouco sobre o mundo em que vivemos. E, em muitos sentidos, elas funcionam melhor do que no campo da ficção, muitas vezes mais associados à questão estética ou provocadora da arte. Parece fácil - pelo menos, para mim - relacionar o documentário à mídia, à imprensa escrita e audiovisual e principalmente ao quesito denúncia (mesmo que em alguns casos não seja esse o interesse do realizador). E tenho um colega cinéfilo das antigas que gosta de imaginar o documentário pelo mesmo viés do autor Aldous Huxley ou do cantor Jim Morrison, vocalista da banda de rock The Doors. Ou seja, como "portas da percepção". Cada louco com a sua mania!

Enfim... Decidi falar sobre documentários que mexeram com a minha cabeça na última, sei lá, década e meia, e ainda estão povoando os meus pensamentos de tempos em tempos. Filmes que deram uma volta em 360 graus no meu cérebro logo de cara ou acabaram construindo uma catarse à medida que os fui revendo (e, em alguns casos, os revi mais de uma vez).

Não sei se já disse isso aqui nesse canal, mas meu tema do TCC da faculdade quase teve a ver com o gênero. Tinha até um título em vista: O documentário brasileiro como síntese da crítica social e planejava um capítulo exclusivo sobre o documentarista Eduardo Coutinho (de quem ainda pretendo falar por aqui, num momento mais oportuno). Pois bem: não rolou e acabei enveredando por outro caminho, o da crítica de cinema e sua relação com as mídias internéticas.

Contudo, o gênero por si mesmo sempre me chamou a atenção e ao longo dos anos me proporcionou grandes passeios e reflexões. Vamos a algumas delas?

Primeiramente, uma dupla de longas que gosto muito: Buena vista social club, de Wim Wenders e Café dos maestros, de Miguel Kohan. Ambos falam de esquecimentos injustos, seja por parte de uma geração ou de músicos notáveis. No primeiro, Wenders traz uma geração de músicos cubanos relegados à segundo plano pelo regime castrista, que acabam sendo redescobertos pela América, que os convida para um show na linha revival. No segundo, um encontro de maestros - como bem define o título - que resumem a história do tango nas décadas de 1930 e 1940. Ambos fazem o espectador lutar com as lágrimas a cada fotograma exibido e mostram uma triste realidade: a dificuldade que temos de nos relacionar com nossa própria memória afetiva, sempre jogando-a para escanteio.

A segunda dupla é mais dura, mais ácida. Trata da guerra, da violência urbana e de suas consequências funestas. Mais especificamente, da guerra no Oriente Médio. Em Redacted - guerra sem cortes, de Brian de Palma, o diretor de clássicos como Scarface e Os intocáveis, dá voz (e càmeras) aos soldados que lutam no Iraque e mostra as eternas manipulações midiáticas criadas para fazer o conflito soar mais agradável aos ouvidos e olhos norte-americanas. Um verdadeiro estudo de caso sobre as intenções e subversões do conflito armado. Já Tiros em Columbine, de Michael Moore (vencedor do Oscar de melhor documentário em 2003), toca na questão insólita do facínio do povo americano pelas armas de fogo e mostra o quanto é fácil adquirir uma em suas terras. Ele aproveita e usa como mote não só a tragédia no colégio Columbine (retratada de forma brilhante pelo filme Elefante, de Gus Van Sant) como também a recente tragédia do 11 de setembro e não perdoa sequer ícones consagrados do país, como o ator Charlton Heston, um apaixonado por armas desde sempre. Juntos, ambos os filmes mostram um retrato cruel do povo que habita a chamada "maior nação da história". Vejam o quanto antes!

No Brasil há duas tendências bastante em voga atualmente: o filme-homenagem sobre uma pessoa pública ou lugar notório do passado e o filme-denúncia, mostrando aspectos do nosso desleixo cotidiano (que a todo momento tentamos esconder do resto do mundo).

Na primeira categoria gosto de exaltar longas como A farra do circo, de Roberto Berliner e Pedro Bronz (sobre o fenômeno por trás do Circo Voador, que agitou os anos 80); Para sempre teu, Caio F., de Candé Salles (uma viagem poética sobre a vida e a obra do escritor Caio Fernando Abreu); Olho nu, de Joel Pizzini (sobre o camaleônico performer e cantor Ney Matogrosso); Loki, de Paulo Henrique Fontenelle (que pontua os feitos e a personalidade do cantor e compositor Arnaldo Baptista, do grupo Os Mutantes) e Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil (que mostra imagens inéditas sobre os bastidores de um dos mais concoridos festivais da canção na época da ditadura).

Na segunda, nunca me canso de reassistir Lixo Extraordinário, co-dirigido por João Jardim (que trata do trabalho do artista plástico Vik Muniz num aterro sanitário em Jardim Gramacho junto com catadores de lixo) e Estamira, do diretor Marcos Prado, que também aborda a questão desumana com que os catadores de lixo são tratados, mas foca na personagem-título, que tem problemas mentais. E mesmo num universo sórdido, que muitas vezes lembra um cenário de uma ficção-científica distópica, consegue filosofar sobre os problemas sociais do país e critica a visão consumista da sociedade nas grandes metrópoles. "Precisamos, de fato, comprar tanta coisa?", parece dizer a todo tempo o longa, com lágrimas nos olhos. Precisamos fazer tanta gente sofrer?

Poderia terminar meu passeio por aqui, mas seria terminantemente injusto com Pina, do mesmo Wim Wenders que nos presenteou com Buena Vista, e que faz um passeio lúdico pela obra de Pina Bausch, uma das maiores bailarinas da dança contemporâneo. Com Amy, de Asif Kapadia, que desnuda a intimidade da cantora Amy Winehouse, um dos últimos talentos musicais recentes, morta prematuramente aos 27 anos. E com Murderball - paixão e glória, de Henry Alex Robin e Dana Adam Shapiro, que nos apresenta ao esporte que dá título ao documentário (esporte esse praticado por cadeirantes) e siua batalha diária para permanecer vivo, em meio às críticas de quem pensa não tratar-se aquilo de um esporte.

Eu ficaria meses, anos - sério! - acrescentando grandes exemplares à lista e ainda assim ela estaria longe de terminar. Os doces bárbaros, Sicko, Uma verdade inconveniente, Sob a névoa da guerra, Senna, Eu não sou negro... Acreditem: a lista é infinita. E como toda lista é preciso oferecer aos leitores um pequeno estrato, apenas para deixar um gostinho de quero mais na cabeça dos espectadores. Espero ter conseguido tal feito.

E pensar que meu interesse pelo gênero começou com Zelig, o falso documentário que Woody Allen dirigiu em 1983 e que trata de um homem comum, sem nenhum talento em especial, que chama a atenção de inúmeras pessoas famosas de seu tempo, para seu tipo justamente fora dos padrões de estética da época. Meu vizinho diz que esse filme é fundador do que hoje conhecemos como mockumentary (tema que eu já abordei aqui nesse site. Procurem!). Eu tenho minhas dúvidas, mas... Não será esse também o papel do documentário? Provocar um grande mas, um grande e se? Transitar entre o mundo real e a ficção, flertando com ambos os caminhos?

Neste momento divago, De propósito. Sim, a não-ficção é uma grande divagação, um grande incômodo artístico sobre o mundo que nos rodeia. Talvez por isso goste tanto de documentários. Talvez por isso eles sejam tão necessários. Para entendermos - nem que seja um pouquinho só - a grande paranóia humana na qual estamos inseridos, da qual não conseguimos fugir. E talvez eles, produtores desse formato, sejam os grandes loucos da história.

Que permaneçam sempre assim!

 

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