Quem é o ladrão?

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(Um conto contemporâneo)

Quem é o ladrão?

Digo: quem é, de fato, o ladrão?

Eu já não sei mais.

Eles estão por todos os lados, vestidos do que quer que sejam. Os ladrões são o que há de mais sofisticado em nossa sociedade cada dia mais caótica.

Parecemos viver em meio a uma sci-fi high-tech, daquelas que o Phillip K. Dick e o William Gibson tornaram célebres. Só que o ingrediente principal, nesse caso aqui, é a violência.

Não sabemos mais por onde andar. Não sabemos mais quem é vilão e quem não é. Não sabemos mais se estão de terno e gravata ou descamisados. Se tem bons empregos ou estão vivendo abaixo da linha da pobreza. se são brancos, negros, índios, cafuzos, mamelucos, asiáticos, muçulmanos, homossexuais, heterossexuais, transexuais, bissexuais ou mesmo assexuados. Não sabemos mais o que é real. E o que é ficção.

Na verdade, tudo parece ficção. O jornal que você compra na banca, o discurso dos políticos, a propaganda dos produtos e serviços, a literatura que invade as prateleiras de best-sellers, o telefonema da atendente de telemarketing, as aulas dos professores universitários, o que é vendido 24 horas por dia na internet, as redes sociais (sociais? fala sério!). Tudo, absolutamente tudo, parece não passar de uma ficção nonsense.

Malditos ladrões!

Roubaram, muito mais do que o meu salário, os meus sonhos. Roubaram a minha alegria, o meu direito à divergir, a minha vontade de seguir em frente (se continuo seguindo, é por pura teimosia), as minhas relações interpessoais - amorosas ou não -, a minha certeza ao responder qualquer pergunta. Já repararam na quantidade de vezes que ficamos na dúvida durante o dia, mesmo em questões que no passado tínhamos uma certeza quase gritante? Pois é: eu reparei. E venho reparando nisso há um bom tempo nesses últimos cinco anos.

Volto a perguntar: quem é o ladrão?. Mas alguma coisa me diz que não vou conseguir respondê-la, por mais que eu tente, por mais que eu queira. Parece uma pergunta retórica, incômoda, salafrária, dessas que tem que nos acompanhar durante toda a vida, irritantemente, compulsivamente, exaustivamente, intermitentemente.

A mídia tenta apontar seu dedo acusador para os culpados (é sempre no coletivo, nunca um ladrão solitário!), mas não me convence. Os meus vizinhos, que adoram acusar os outros de alguma coisa, mas de vez em quando não abrem mão de seus delitos pessoais, dizem que é tarde demais para acusá-los, encontrá-los, prendê-los. Dizem mais: "eles já conseguiram contaminar todo o resto". E eu me pergunto sozinho, sentado no sofá da sala, sobre essa declaração. O que ela possui de verdadeira. O meu professor de história da época do segundo grau (de quando o segundo grau era chamado de segundo grau), seu Carmelo, que Deus o tenha no plano superior, pois não se encontra mais entre nós, me disse certa ocasião que as pessoas de quem mais temos antipatia são as mesmas que nos dirão coisas sábias, que nos acompanharão por toda a nossa vida. E ele estão certa.

O meu vizinho me apavorou. E mais do que isso: foi lúcido, verdadeiro, sem rodeios.

Os ladrões estão por aí, mais vivos do que nunca. Roubando do dinheiro da merenda de nossos filhos ao dinheiro dos hospitais, do taxista que precisa lutar contra o Uber para sobreviver à estudante universitária que acabou de sair do campus e só tem aquela grana contada para passar o resto da semana, da loja de jóias do shopping até os caminhões de carga que iam entregar suas mercadorias nos supermercados. São ratos. Ratos de esgoto, imundos, covardes, insensíveis à dor e ao dilema do outro. Mas há um problema: chamamos de Estado. Que deveria nos proteger, mas também age como um ladrão vil, torpe, infame, biltre, desprezível. O maior de todos. O ladrão dos ladrões. Ali Babá teve 40 acompanhantes. No congresso, são mais de 500. Um cartel digno de deixar no chinelo o hoje superstar Pablo Escobar.

"Aonde vamos parar?", grita a vovó de 92 anos, que já viu de tudo nessa vida, e ainda é capaz de se surpreender com a maldade dos homens.

"Aonde vamos parar?", grita a menina de pouco mais de 15 anos, que não vai mais ter sua festa de debutante porque o salão de festas que iria realizar o evento declarou falência e fugiu com o dinheiro de mais de 200 famílias que acreditaram no mesmo sonho.

"AONDE VAMOS PARAR???", grito eu, alucinado, quase desesperançado, vivendo da expectativa de dias melhores que nunca veem.

Quem é o ladrão? Não importa mais. O que eu quero saber agora é: "até quando?".

 

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