O cinema nacional ainda vive

(O filme da minha vida e a sétima arte como êxtase)

Por que se vai ao cinema? Abstração? Entretenimento pura e simplesmente? Engajamento? Paranoia? Alucinação desmedida? Nostalgia? Sempre que termino a sessão de um grande filme no cinema eu me pego recorrentemente fazendo a mesma pergunta. E salvo raros casos, a resposta é quase obrigatoriamente a mesma: vou ao cinema na expectativa de (anda) me encantar com o mundo. Com a capacidade do mundo lutar contra a sua própria autodestruição.

Pois bem: hoje, para minha alegria, foi mais um desses dias. E o diretor (e também ator) Selton Mello conseguiu mais uma vez. O seu terceiro longa, O filme da minha vida, é uma viagem lúdica pelo mundo da sétima arte e da cultura pop como um todo.

Gosto de Selton há tempos. Seja como o dublador dos personagens Daniel Larusso (do até hoje icônico Karatê Kid) e Charlie Brown (da série Peanuts, que fez enorme sucesso no Brasil quando era exibido pelo SBT na década de 90), seja como ator dos até hoje conceituados O auto da compadecida, de Guel Arraes e Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima e, finalmente, como realizador. Em seus longas anteriores, Feliz natal e O palhaço (este segundo um exercício de linguagem sublime!), vi a paixão e o apuro de um artisto inquieto que some amadurecer na hora certa. E senti-me ainda mais orgulhoso por ser seu fã.

Com O filme da minha vida, Selton Mello prova para seu público, de uma vez por todas, que é um dos grandes nomes do cinema nacional da atual geração. Coeso em tudo o que diz, pensa e naquilo com que trabalha, promove um ensaio estético do mais alto grau a partir de uma narrativa emocionante, baseada no romance Um pai de cinema, do escritor chileno Antonio Skármeta.

A jornada de conhecimento - e de amadurecimento - de Tony Terranova (o jovem e talentoso Johnny Massaro, ainda um tanto desconhecido pela maioria dos espectadores brasileiros) é de marejar os olhos. Mais do que isso: de me fazer pensar no rumo que estou dando a minha própria vida nos últimos anos. O diretor, durante toda a distribuição do longa, mostrou em seus discursos, o quanto foi desafiador realizá-lo. Disse mais: "em vários momentos, pensei em desistir". Que bom que não o fez! Na semana que antecedeu a estreia, falou que era um filme para esquecer o país em que estamos vivendo atualmente. "Um filme para nos repensarmos", frisou. E está completamente certo.

A história? Sem entrar em muitos detalhes, pois quero que o maior número de brasileiros o assistam (é uma pena saber que aqui no país grandes bilheterias são sinônimo de filmes medíocres e longas como o de Selton Mello raramente sobrevivem à segunda semana de exibição): Tony é filho de pai francês, Nicolas (o ator internacional Vincent Cassel) e mãe brasileira e sai de sua cidade natal para estudar. Anos depois, formado professor, regressa para descobrir que é seu pai que está indo embora. É o fim de seu casamento. A partir dessa imagem melancólica, o jovem de 20 anos procura um sentido em sua vida em meio à amores platônicos (como o que sente pela Petra e sua irmã Luna) e um emprego monótono numa escola repleta de alunos completamente desinteressados pelo conteúdo de suas aulas.

Insatisfeito, ele decide atravessar a fronteira para ir ao prostíbulo. Deseja uma noite de amor que o faça esquecer os problemas da vida. E para isso, pede a ajuda do misterioso amigo Paco (interpretado pelo próprio Selton). E é a partir desse segundo momento de sua vida que descortina-se sob ele um novo mundo de possibilidades e escolhas, antes tão difíceis.

Há muito o que elogiar em O filme da minha vida: a reconstituição de época e o elenco eclético (com direito à participação honrosa de Rolando Boldrin, ícone televisivo do passado, hoje quase esquecido do público) dão a tônica da beleza e do conteúdo que os espectadores apreciarão nas quase duas horas de longametragem.

A trilha sonora é um capítulo à parte, com direito à clássicos da MPB como "Coração de papel", de Sérgo Reis e "Errei, sim" de Dalva de Oliveira até sucessos internacionais retumbantes como Charles Aznavour, The Animals e Nina Simone (usada para compor uma cena de festa exuberantemente bem realizada). Posso dizer, sem exageros, que é praticamente meio filme.

Outro ponto que atraiu minha atenção foi a correlação entre a ideia de travessia, de rito de passagem, com a locomotiva que atravessa a cidade, levando diariamente milhares de pessoas para os mais distintos lugares, com o intuito de resolver os mais diversos problemas. Em suma: seu maquinista acaba por funcionar como uma espécie de guia do mundo (metaforicamente falando).

Além da locomotiva, o filme é pontuado por pequenas participações e coadjuvantes para lá de bem colocados na trama - a puta que gosta de geografia, o aluno que só quer saber de ir à zona, a telefonista e colega de trabalho da mãe, que volta e meia flerta com o protagonista -, compondo um mosaico de intenções humanos bastante interessante.

Ufa! Dito tudo isso sem respirar e admirando cada momento, cada frenesi, cada êxtase oferecido pela trama (as cenas em que Tony levita são de uma singeleza raras em nossa cinematografia recente), chego ao fim desta modesta crítica com uma certeza: nosso audiovisual tem mais um motivo para se orgulhar de um realizador (e esperar dele novas peripécias!). O filme da minha vida é lúdico, engraçado, apaixonante, traz a nossa versão tupiniquim de Louis Garrel (palavras do próprio Selton durante uma entrevista para divulgar o filme), aprisionante (os olhos de Bruna Linzmeyer e a direção de arte são devastadoras no sentido de enjaular os corações da plateia) e devastador.

E mesmo assim... Muitos falarão mal, dirão que é estrangeiro, europeu em excesso, que não tem nada a ver com nossa cinematografia e blá blá blá... Quer saber? Danem-se os críticos. A maior parte do tempo eles só querem saber de si próprios e nada mais. Apreciem. E sem moderação (mais de uma vez até, se puderem).

P.S (tô ficando especialista nessa coisa de P.S): li recentemente um artigo na internet dizendo que O filme da minha vida pode ser uma grande escolha como candidato nacional ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano que vem. Eu apoio. Total e irrestritamente.

 

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