Interpretação e ideologia

  • 27/08/2017
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É perceptível que todo o pensamento contemporâneo tornara-se interpretação.

 

Interpretação e ideologia

 

Estabelecer um confronto entre hermenêutica e ideologias é um desafio. Encarar a decodificação interpretativa do universo dos signos reinantes e vigentes nos discursos contemporâneos principalmente nas ciências humanas e sociais e, ainda adotar uma posição crítico-interpretativa dos discursos ideológicos que inundam o contexto presente, é outro desafio intrigante.

 

Perceber o quanto tais discursos ideológicos se infiltram e infestam e ainda dissimulam em todo conhecimento, por mais científico que este seja.

 

Faz-se imperioso converter o método hermenêutico num contínuo esforço para salvar o homem apesar da ciência, e com a ciência, de vez que os métodos positivistas para salvar a ciência, veem-se obrigados a mutilar o homem.

 

Contrário ao espírito geométrico, ainda presente e atuante nos cientistas, a hermenêutica sempre opta pelo espírito da finesse, porém, sem cair nas ilusões da consciência imediata. Enfim, almeja-se uma filosofia como tarefa de tomada de consciência através da decifração do sentido oculto nos sentidos aparentes.

 

O que é realizável por meio da interpretação do universo do simbolismo e do processo de dissolução das ilusões da consciência.

 

É necessário que os ídolos morram para que sobrevivam os símbolos, em sua eternidade semântica.

 

É indispensável se insurgir contra o terrível dualismo epistemológico que se instaurou na corrompida mentalidade contemporânea, que vive a dicotomizar os sentidos.

 

Lembremos que Paulo Ricoeur é considerado o filósofo do sentido e sua obra pode ser considerada como uma das mais ricas e sofisticadas de nossa era. Sua análise inicial é uma ortodoxa avaliação da vontade humana e, sua finalidade é atingir e formular a teoria da interpretação do ser.

 

A fenomenologia, portanto, constitui um momento decisivo de sua metodologia,

 

E a originalidade de Ricoeur não reside em fazer filosofia a partir de filosofia, não reflete a partir de ideias. Seu pensamento não se abriga e nem repousa sobre o pensamento dos outros.

 

Possui o filósofo um pensamento que recria, que se serve do pensamento dos outros como um instrumento.

 

Evidentemente, sua filosofia não constitui uma criação ex nihilo, um círculo que se fecha em si mesmo, porque não pode haver filosofia sem pressuposições.

 

O pensamento de Ricouer se propõe a adotar um método reflexivo capaz de romper todo e qualquer pacto com o idealismo. De forma alguma pretende negar sua relação com o vivido. Ao revés, tem-se em vista o esclarecimento, mediante conceitos, da existência. Afinal, esclarecer a existência é elucidar seu sentido.

E, por isso, o próprio filósofo escolheu como problema o da hermenêutica, isto é, o da extração e da interpretação do sentido.

 

Assim percebeu que todo o pensamento moderno tornou-se interpretação. E, a questão essencial não é tanto a do erro ou da mentira.

 

Para descobrir a verdade, deve-se dissipar essa questão. A atual crise da linguagem pode ser resumida na oscilação entre a desmistificação e a restauração do sentido. E, o projeto de Ricouer é o de redescobrir a autenticidade do sentido graças a um esforço vigoroso de desmistificação.

 

O grande esforço de desmistificação começa com a construção de Filosofia da vontade tendo por objetivo reconciliar Descartes e Kierkegaard, através de uma meditação sobre a linguagem. O método usado é o fenomenológico, tentando compreender o que descreve, para descobrir seu sentido.

 

Para atingir mais diretamente o essencial da questão da vontade, o filósofo coloca entre parênteses os temas religiosos da falta e da transcendência.

 

Sua eidética da vontade supõe a suspensão do juízo sobre os dogmas religiosos do pecado original e das relações do homem com Deus.

 

A suspensão do juízo sobre a falta original permite-lhe o estudo sem preconceito da falibilidade empírica da vontade humana.

E a desconsideração provisória da transcendência permite-lhe restituir o poder criador simbólico à vontade, mediante a poesia.

 

A vontade precisa ser isolada e purificada. Não pode ser analisada apenas pelo método que se funda no estudo dos atos objetivantes da percepção e do saber, nem tampouco pelo que reduz suas análises a um modelo único a existência vivida.

 

A vontade precisa ser estudada em si mesma. Seus componentes essenciais são o projeto, a execução e o consentimento.

 

Isto implica a correlação do voluntário e do involuntário. Porque querer é projetar um mundo, apesar ou contra os obstáculos. Querer também é projetar uma intenção que, pelo consentimento, converte-se em necessidade sofrida e retomada pelo consentimento.

 

No contínuo esforço de desmistificação, Ricouer suspende o parênteses que introduzira entre a falta e a transcendência,  para instaurar uma dialética do voluntário e do involuntário, dominada pelas ideias de desproporção, de polaridade do finito e do infinito, de intermediário ou de mediação.

 

Na sua obra Finitude e culpabilidade, não enfocam mais o problema da realidade do mal, mas o problema de sua possibilidade, vale dizer, da falibilidade. A finitude não basta para explicar o mal. O relevante é saber que a finitude possibilita a inserção do mal na realidade humana.

 

O pathos da miséria torna-se um ponto de partida de uma filosofia do homem. O homem não é simples meio entre o ser e o nada. O homem não essa intermediariedade que consiste em operar mediações entre contrários ou correlativos.

 

A fonte da falibilidade reside em certa medida de não-coincidência do homem consigo mesmo. O homem é um ser que não coincide consigo mesmo.

 

É um ser que comporta uma negatividade. E, o papel da filosofia consiste exatamente em refletir sobre esse caráter patético da miséria, que se revela justamente nos níveis do conhecer, de agir e do sentir.

 

No plano do conhecer, a primeira característica do objeto é o desagregar. Pois o homem não cria o real. Ele o recebe como uma presença. Sua percepção se abre ao mundo. Percepção finita. Toda visão é um ponto de vista. O mundo é o horizonte de todo objeto, que é percebido apenas em parte.

 

Há possibilidades infinitas de captá-lo. Muitos pontos de vista nos escapam. No entanto, podemos dizê-los: pela linguagem, cogitamos em isonomias ocultas e não perceptivas das coisas.

 

Referências:

RICOUER, Paul. Interpretação e Ideologias.  4ª edição.Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

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