A primeira copa a gente nunca esquece!!!

(Memórias de infância 10)

Vi Galvão Bueno por esses dias participando do programa Esporte Espetacular e relembrando, cheio de lágrimas e sorrisos, da final da copa do mundo de 1994, disputada por Brasil e Itália. E viajei junto na memória (que também é minha).

Ah! A primeira copa a gente nunca esquece! Digo: a primeira copa que eu vi que o Brasil sagrar-se campeão. Pois se eu for falar da seleção de 1982 (Zico, Sócrates, Júnior e companhia limitada) eu fico aqui a semana toda. O Brasil ficou 24 anos sem vencer o torneio e Carlos Alberto Parreira assumiu - junto com o eterno velho lobo Zagallo, único tetracampeão do mundo - a difícil missão de reverter esta situação.

E acreditem: foi uma copa difícil para a seleção canarinho do início ao fim. As críticas à escalação de Raí (eu lembro de gente dizendo nas ruas "esse cara é caso do Parreira. Só pode! Vai ser ruim de bola no inferno!") e Zinho (que ganhou o apelido de enceradeira, que o acompanhou durante anos após a Copa); a classificação só veio na última rodada das eliminatórias, em cima do Uruguai, 2 a 1, dois gols de Romário, no Maracanã.

O Brasil estreou na primeira fase contra a Rússia (2x0), seguido de Camarões (3X0) e um sofrível empate com a Suécia (1X1), que começou a despertar a desconfiança da torcida fanática, que acreditava que acabaríamos desclassificados prematuramente, de novo nas oitavas, como acontecera quatro anos antes, com aquele gol de Caniggia, da Argentina, que ninguém consegue esquecer. E o jogo das oitavas com a seleção dos EUA foi o maior sofrimento de toda aquela copa. Leonardo expulso, o Brasil com dez, contra os donos da casa... Ufa! E o gol do Bebeto, chorado, com direito à embala neném e tudo. 1x0. Acham que acabou? É porque não lembram do jogo contra a Holanda (3x2) e o gol de falta salvador do Branco, que também vivia uma má fase do diabos. No semi-final a Suécia de novo tentando melar a festa, mas Romário calou a torcida rival (1x0, de novo). E, enfim, a grande, avassaladora, traumática final, contra nossos algozes de 1982 (mas a torcida preferindo lembrar, é claro, da final de 1970).

17 de julho de 1994. Rose Bowl, Pasadena, Calfórnia. Eu faria 18 anos apenas em dezembro (portanto, ainda menor de idade). Rafael, um colega de infância, me chamar para assistir a final na casa de seu avô, seu Néri. Naquele dia, de manhã, simuláramos uma pelada Brasil e Itália na rua. Ninguém quis ficar no time da Itália e ela acabou vencendo de virada, por 2x1. Mau presságio. "Isola, rapaziada!", gritou Duca. "Na hora da final vai ser diferente".

Chega a hora do jogo e Dudu, filho do dono do bar na esquina da rua, e Bruno, filho de um policial que volta e meia tirava dúvidas de matemática comigo, me acompanham até a casa de Seu Néri (ele não gostava de ser chamado de senhor). Sentamos na sala, pouca luz, dona Elisa, sua esposa, faz pipoca, toca o hino, o irmão de Rafael, Thiago, levanta-se e pôe a mão no peito para cantar junto, num tom de pilhéria. "Bem amigos da Rede Globo", começa Galvão e etc e tal. A bola rola.

O jogo, como disse antes, é traumático. A furada de Mauro Silva quase permite o gol de Massaro. Para nossa sorte, Taffarel estava lá (e ele seria o herói da tarde). Romário perde um gol que muita gente até hoje não acredita que ele pudesse perder. Bola lá, bola cá, Mazinho (que tomou a vaga de Raí, para a felicidade de muitos torcedores) mete uma na trave e o goleiro italiano, Pagliuca, agradece a mesma com um beijinho (Galvão dispara: beija logo as três!). Os 90 minutos terminam no 0x0 e a prorrogação, no mesmo ritmo, times cansados (o Brasil, contudo, em termos de preparo físico, é superior). Mas gol que é bom nada.

120 minutos depois, o árbitro apita. Acabou. Hora dos pênaltis. Pênalti? Não!!!! Pelo amor de Deus, vai começar tudo de novo. Em 1986, o Brasil deu adeus contra a França nas penalidades, com direito a Zico perdendo pênalti no tempo normal. Meu Deus! De novo, não! Bruno se levanta da cadeira, com a mão cheia de pipoca: "agora ou vai ou racha! Pra cima deles, Brasil!". Todo mundo ri. O clima é esse. Dessa vez, tem que ser diferente. 24 anos sem título. Chega!

Começa a hora da verdade. Franco Baresi, cracaço de bola, abre as cobranças para a Itália, e isola. Isola muito. Levantamos das cadeiras aos berros. Porém, a euforia dura pouco. Márcio Santos, nosso quarto zagueiro, também perde a primeira cobrança do Brasil. Pagliuca pega. Ouvimos gritos de "canalha!", "quem mandou escolher esse imbecil?", "isso nunca jogou nada! mascarado!", entre outras pérolas da ironia e do desabafo suburbano. Albertini cobra o segundo e converte. Vem o baixinho Romário, artilheiro do Brasil, bate e a bola entra raspando a trave (que sufoco! a torcida na casa de Seu Néri quase passa mal). Evani mete a bola no meio do gol, Itália na frente de novo. Chega Branco, o injustiçado, que veio para a copa rotulado de "arruinado, acabado para o futebol", e deixa a bola prum lado, goleiro pro outro. E enfim Massaro, aquele que quase marca na bobeira de Mauro Silva no tempo normal... E brilha a estrela de Taffarel. A torcida brasileira no estádio vem abaixo. Dunga, capitão da seleção, é o próximo e não decepciona no seu papel de líder do grupo. O brasil vira. 3x2.

E Roberto Baggio, o jogador mais importante da seleção italiana, se aproxima da bola. Muitos dirão depois, nas resenhas pós-jogo, que ele não tinha a menor condição de jogo. Na verdade: durante toda a copa ele jogou no sacrifício. Era visível isso, para quem assistiu as partidas do escrete italiano. Mas coube a ele a missão de decidir, de mostrar que era o grande nome de seu elenco. E ele isola. Ao som de "acabou! acabou! é tetra! é tetra!", galvão agarrado a Pelé e o comentarista Arnaldo César Coelho chora, se esbalda; na casa de Seu Néri todos choram também. Corro até a vila onde minha avó morava e todos gritam, pessoas roucas. Uma verdadeira catarse!

Depois de quase duas décadas e meia o Brasil fatura o tetracampeonato e eu vejo, pela primeira vez, o meu país sagrar-se campeão do mundo. Eu também veria o penta em 2002, mas confesso: não teve o mesmo desespero, a mesma raça, o mesmo sufoco. Houve, isso sim, a sensação de que faltou alguma coisa. Algo que deixava a torcida ensandecida, envolvida.

Entenderam? Eu sei... É difícil traduzir em palavras.

Com o passar dos anos e as sucessivas desclassificações (muitas delas, a meu ver, desonrosas), meu frisson com a competição e a seleção brasileira foi passando. E a copa de 1994 virou um símbolo de realização, de superação, de plenitude. Não éramos a melhor seleção. Nem de longe! E até hoje não engulo aquela história do corte do Maradona por causa da substância Efedrina em sua corrente sanguínea (quem sabe um dia a verdade apareça). Entretanto, muitos que como eu estão hoje na casa dos 40 anos, preferem lembrar dessa final do que qualquer outra participação do Brasil em copas nos últimos 20 e tantos anos.

Saudade nem sempre é coisa que dá e passa! E uma certeza ficou desse dia: que pena que o nosso futebol, dentro de campo, não tem mais o mesmo nível de comprometimento.

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